Questão 124 do ENEM 2016Linguagens

ENEM 2016Linguagens3ª aplicação

Quinze de Novembro

Deodoro todo nos trinques
Bate na porta de Dão Pedro Segundo.
— Seu imperadô, dê o fora
que nós queremos tomar conta desta bugiganga.
Mande vir os músicos.
O imperador bocejando responde:
— Pois não meus filhos não se vexem
me deixem calçar as chinelas
podem entrar à vontade:
só peço que não me bulam nas obras completas de
[Victor Hugo.

MENDES, M. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

A poesia de Murilo Mendes dialoga com o ideário poético dos primeiros modernistas. No poema, essa atitude manifesta-se na
releitura irônica de um fato histórico.
Resposta correta
B
visão ufanista de um episódio nacional.
C
denúncia implícita de atitudes autoritárias.
D
isenção ideológica do discurso do eu lírico.
E
representação saudosista do regime monárquico.
Gabarito oficial: alternativa A

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar o poema de Murilo Mendes à luz das características da Primeira Geração do Modernismo brasileiro (também conhecida como Fase Heroica).

O poema "Quinze de Novembro" retrata um dos eventos mais importantes da história do Brasil: a Proclamação da República. No entanto, em vez de descrever o episódio com a grandiosidade e o tom épico que costumam marcar os relatos históricos oficiais, o eu lírico utiliza uma linguagem extremamente coloquial e bem-humorada. Vemos Marechal Deodoro da Fonseca batendo na porta e dizendo "dê o fora", chamando o país de "bugiganga", enquanto D. Pedro II responde "bocejando", pedindo apenas para calçar as "chinelas" e proteger seus livros de Victor Hugo.

Essa forma de abordar a história é uma marca registrada dos primeiros modernistas (como Oswald de Andrade e Mário de Andrade), que buscavam desconstruir e desmistificar o passado histórico brasileiro. Eles utilizavam a ironia, o humor (o famoso "poema-piada") e o rebaixamento do tom solene para criticar a visão ufanista e idealizada da nossa história.

Analisando as alternativas:

A) releitura irônica de um fato histórico. Correta. O poema faz exatamente isso: reconta a Proclamação da República de forma cômica, irônica e desprovida de qualquer heroísmo.

B) visão ufanista de um episódio nacional. Incorreta. O ufanismo é o orgulho exagerado, a exaltação da pátria. O poema faz o oposto, tratando o evento de forma banal.

C) denúncia implícita de atitudes autoritárias. Incorreta. O foco do texto não é denunciar o autoritarismo, mas sim ridicularizar a pompa do evento histórico.

D) isenção ideológica do discurso do eu lírico. Incorreta. A escolha de desconstruir a história oficial é, por si só, uma postura ideológica e estética muito clara.

E) representação saudosista do regime monárquico. Incorreta. Não há saudade ou exaltação da monarquia; D. Pedro II é retratado de forma caricata, como um velho cansado e de chinelos.

Portanto, a atitude poética que dialoga com o ideário modernista é a desconstrução irônica da história oficial.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2016 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.