Questão 116 do ENEM 2014Linguagens

ENEM 2014Linguagens3ª aplicação

Retrato do artista quando coisa

A menina apareceu grávida de um gavião.
Veio falou para a mãe: o gavião me desmoçou.
A mãe disse: Você vai parir uma árvore para
a gente comer goiaba nela.
E comeram goiaba.
Naquele tempo de dantes não havia limites
para ser.
Se a gente encostava em ser ave ganhava o
poder de alçar.
Se a gente falasse a partir de um córrego
a gente pegava murmúrios.
Não havia comportamento de estar.
Urubus conversavam sobre auroras.
Pessoas viravam árvore.
Pedras viravam rouxinóis.
Depois veio a ordem das coisas e as pedras
têm que rolar seu destino de pedra para o resto
dos tempos.
Só as palavras não foram castigadas com
a ordem natural das coisas.
As palavras continuam com seus deslimites.

BARROS, M. Retrato do Artista Quando Coisa. Rio de Janeiro: Record, 1998.

No poema, observam-se os itens lexicais desmoçou e deslimites. O mecanismo linguístico que os originou corresponde ao processo de
A
estrangeirismo, que significa a inserção de palavras de outras comunidades idiomáticas no português.
neologismo, que consiste na inovação lexical, usada para o refinamento estilístico do texto poético .
Resposta correta
C
arcaísmo, que expressa o emprego de termos produtivos em outros períodos históricos do português.
D
brasileirismo, que significa a inserção de palavras específicas da realidade linguística do português.
E
jargão, que evidencia o uso profissional de palavras específicas de uma área do léxico do português.
Gabarito oficial: alternativa B

Resolução comentada

A questão nos pede para identificar o mecanismo linguístico responsável pela criação das palavras "desmoçou" e "deslimites", presentes no poema de Manoel de Barros.

Ao analisarmos essas duas palavras, percebemos que elas não constam nos dicionários tradicionais da língua portuguesa. Elas foram inventadas pelo autor a partir de elementos já existentes no nosso idioma. No caso, ele utilizou o prefixo de negação ou oposição "des-" e o uniu ao radical de "moça" (criando o verbo "desmoçar") e ao substantivo "limites" (criando "deslimites").

Esse processo de invenção de novas palavras, ou de atribuição de novos significados a palavras já existentes, é chamado de neologismo. Na literatura, e especialmente na poesia de Manoel de Barros, os neologismos são recursos estilísticos fundamentais. Eles servem para romper com a lógica comum da linguagem, causando estranhamento e ampliando as possibilidades expressivas do texto poético — o que o próprio poema descreve quando diz que "As palavras continuam com seus deslimites".

Vamos analisar por que as outras alternativas estão incorretas:

  • Estrangeirismo (A): Consiste no empréstimo de palavras de outros idiomas (como show, shopping), o que não é o caso, pois as palavras foram formadas com elementos do próprio português.
  • Arcaísmo (C): É o resgate de palavras antigas que caíram em desuso (como "vosmecê"). As palavras do poema são invenções novas, não termos antigos.
  • Brasileirismo (D): Refere-se a expressões típicas do português falado no Brasil (como "mandioca" ou "caipira"). As palavras em questão são criações poéticas individuais, não termos de uso regional ou nacional.
  • Jargão (E): É o vocabulário técnico específico de um grupo profissional (como o jargão médico ou jurídico). O poema não utiliza linguagem técnica.

Portanto, o mecanismo linguístico que originou esses itens lexicais é o neologismo.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2014 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.