SALGADO-LABOURIAL, M.L., História ecológica da Terra. São Paulo: Edgard Blucher, 1994 (adaptado).
Questão 57 do ENEM 2019 — Ciências Humanas
Resolução comentada
O mapa apresentado classifica as regiões do planeta em áreas semiáridas e áridas (desertos). O que salta aos olhos é um padrão latitudinal: as grandes manchas de aridez se concentram em faixas próximas aos trópicos, por volta de 30° de latitude, tanto ao norte quanto ao sul.
No Hemisfério Sul, seguindo essa faixa em torno do Trópico de Capricórnio, o mapa mostra áreas áridas na Austrália, no sul da África e na costa oeste da América do Sul (região do deserto do Atacama). Já sobre o território brasileiro, nessa mesma latitude, não aparece essa mancha de deserto — há uma interrupção clara no padrão. O comando pergunta o porquê dessa exceção.
A regra: por que se formam desertos nos 30°?
As faixas próximas aos 30° de latitude são zonas de alta pressão atmosférica (zonas anticiclônicas). Nelas, o ar que subiu quente e úmido no Equador retorna à superfície já frio e seco. Esse ar descendente inibe a formação de nuvens e de chuva, favorecendo a aridez. Por isso essa latitude é, naturalmente, propícia à formação de desertos.
A exceção brasileira
O que impede o Centro-Sul do Brasil de virar um deserto é a umidade de origem florestal. Os ventos alísios trazem umidade do Atlântico para a Amazônia, e a floresta funciona como uma imensa bomba d'água: pela evapotranspiração, as árvores devolvem enormes quantidades de vapor à atmosfera.
Essa umidade dá origem à Massa Equatorial Continental (mEc) — uma rara massa de ar continental que é quente e úmida (massas continentais costumam ser secas). Empurrada pelos ventos, ela encontra a Cordilheira dos Andes, não a ultrapassa (o que ajuda a explicar a secura do Atacama, do outro lado) e é desviada para o Centro-Sul do Brasil, levando chuva. Esse transporte massivo de vapor é apelidado de Rios Voadores.
É essa umidade florestal que quebra a sequência de desertos justamente na latitude brasileira.
Analisando as alternativas
- A) Existência de superfícies de intensa refletividade. Incorreta. Alta refletividade (alto albedo) é típica de superfícies já desérticas (areia clara) ou de gelo. Florestas são escuras, têm baixo albedo e absorvem radiação para a fotossíntese.
- B) Preponderância de altas pressões atmosféricas. Incorreta. A alta pressão é justamente o que forma desertos nessa latitude nas outras regiões. O Brasil é úmido apesar dessa tendência, não por causa dela.
- C) Influência de umidade das áreas florestais. Correta. A umidade gerada pela evapotranspiração da Floresta Amazônica e transportada pelos ventos garante chuvas no Centro-Sul, interrompendo a sequência de desertos.
- D) Predomínio de correntes marinhas frias. Incorreta. Correntes frias (como a de Humboldt) retiram umidade do ar e favorecem a aridez costeira (Atacama). O litoral brasileiro é banhado por correntes quentes, que aumentam a umidade.
- E) Ausência de massas de ar continentais. Incorreta. O Brasil tem forte influência de massa continental — a mEc —, que é atipicamente úmida por causa da floresta.
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Fonte: prova oficial do ENEM 2019 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.