Questão 38 do ENEM 2015Ciências Humanas

ENEM 2015Ciências Humanas2ª aplicação

Se vamos ter mais tempo de lazer no futuro automatizado, o problema não é como as pessoas vão consumir essas unidades adicionais de tempo de lazer, mas que capacidade para a experiência terão as pessoas com esse tempo livre. Mas se a notação útil do emprego do tempo se torna menos compulsiva, as pessoas talvez tenham de reaprender algumas das artes de viver que foram perdidas na Revolução Industrial: como preencher os interstícios de seu dia com relações sociais e pessoais; como derrubar mais uma vez as barreiras entre o trabalho e a vida.

THOMPSON, E. P. Costumes em comum: estudos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo: Cia. das Letras, 1998 (adaptado).

A partir da reflexão do historiador, um arguemnto contrário à transformação promovida pela Revolução Industrial na relação dos homens com o uso do tempo livre é o(a):
A
intensificação da busca do lucro econômico.
B
flexibilização dos períodos de férias trabalhistas.
esquecimento das formas de sociabilidade tradicionais.
Resposta correta
D
aumento das oportunidades de confraternização familiar.
E
multiplicação das possibilidades de entretenimento virtual.
Gabarito oficial: alternativa C

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos interpretar o texto do historiador E. P. Thompson e relacioná-lo com as profundas transformações sociais trazidas pela Revolução Industrial.

O comando da questão nos pede para identificar, a partir da reflexão do autor, um argumento que se oponha (ou seja, uma crítica) à forma como a Revolução Industrial transformou a relação das pessoas com o tempo livre.

No texto, Thompson afirma que, com a automação e o possível aumento do tempo de lazer no futuro, as pessoas precisarão "reaprender algumas das artes de viver que foram perdidas na Revolução Industrial". Ele especifica que essas "artes de viver" envolvem "como preencher os interstícios de seu dia com relações sociais e pessoais" e "como derrubar mais uma vez as barreiras entre o trabalho e a vida".

Historicamente, antes da Revolução Industrial, o tempo era ditado pelos ciclos da natureza e pelas tarefas agrícolas ou artesanais. O trabalho e a vida social estavam frequentemente entrelaçados, e a convivência comunitária fazia parte do ritmo natural do dia a dia. Com o advento das fábricas, o tempo passou a ser medido pelo relógio, focado estritamente na produtividade e no lucro. Houve uma separação rígida entre o "tempo de trabalho" (visto como útil e compulsivo) e o "tempo livre" (visto muitas vezes apenas como um intervalo de descanso para a recuperação física do trabalhador).

Essa nova lógica capitalista e industrial fez com que as pessoas perdessem antigas formas de convivência comunitária e integração social. O tempo livre foi esvaziado de seu sentido mais profundo de sociabilidade, tornando-se um tempo fragmentado.

Analisando as alternativas:

  • A alternativa A fala da intensificação da busca do lucro econômico. Embora isso seja uma característica da Revolução Industrial, não é o argumento central do texto sobre a perda na qualidade do uso do tempo livre.
  • A alternativa B cita a flexibilização de férias, o que não condiz com a realidade da Revolução Industrial, que foi marcada por jornadas de trabalho exaustivas e ausência de direitos trabalhistas.
  • A alternativa C aponta o esquecimento das formas de sociabilidade tradicionais. Essa é exatamente a crítica de Thompson quando ele menciona a perda das "artes de viver" e a necessidade de reaprender a preencher o dia com "relações sociais e pessoais".
  • A alternativa D sugere um aumento das oportunidades de confraternização familiar, o que é o oposto do que ocorreu, já que as longas jornadas nas fábricas afastaram as famílias.
  • A alternativa E menciona entretenimento virtual, um conceito contemporâneo que não se aplica ao contexto histórico da Revolução Industrial analisado pelo autor.

Portanto, a crítica central do texto à transformação do tempo livre pela Revolução Industrial é a perda das antigas formas de convivência e integração social.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2015 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.