Questão 44 do ENEM 2020Linguagens

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Seixas era homem honesto; mas ao atrito da secretaria e ao calor das salas, sua honestidade havia tomado essa têmpera flexível da cera que se molda às fantasias da vaidade e aos reclamos da ambição.

Era incapaz de apropriar-se do alheio, ou de praticar um abuso de confiança; mas professava a moral fácil e cômoda, tão cultivada atualmente em nossa sociedade.

Segundo essa doutrina, tudo é permitido em matéria de amor; e o interesse próprio tem plena liberdade, desde que se transija com a lei e evite o escândalo.

ALENCAR, J. Senhora. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br. Acesso em: 7 out. 2015.

A literatura romântica reproduziu valores sociais em sintonia com seu contexto de mudanças. No fragmento de Senhora, as concepções românticas do narrador repercutem a
resistência à relativização dos parâmetros éticos.
Resposta correta
B
idealização de personagens pela nobreza de atitudes.
C
crítica aos modelos de austeridade dos espaços coletivos.
D
defesa da importância da família na formação moral do indivíduo.
E
representação do amor como fator de aperfeiçoamento do espírito.
Gabarito oficial: alternativa A

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar o tom e a intenção do narrador ao descrever o personagem Fernando Seixas no fragmento do romance Senhora, de José de Alencar.

O texto nos apresenta um narrador que, embora afirme inicialmente que Seixas "era homem honesto", logo em seguida desconstrói essa afirmação. Ele descreve a honestidade do personagem como tendo uma "têmpera flexível da cera", ou seja, uma moralidade que se molda facilmente aos interesses pessoais, como a "vaidade" e a "ambição".

O narrador aprofunda a crítica ao dizer que Seixas professava uma "moral fácil e cômoda", muito comum na sociedade da época. Segundo essa doutrina, "tudo é permitido", e o interesse próprio fala mais alto, desde que se mantenham as aparências — isto é, que se "transija com a lei e evite o escândalo".

Embora o Romantismo seja frequentemente lembrado pela idealização amorosa e heroica, nos romances urbanos (ou romances de costumes), José de Alencar assumia uma postura de forte crítica social. Ele expunha a hipocrisia, o materialismo e a superficialidade da elite burguesa do Segundo Reinado.

Ao utilizar palavras com carga negativa e irônica para descrever essa ética de conveniências, o narrador deixa claro o seu desprezo por esse comportamento. Ele não aceita que o certo e o errado dependam da situação ou do interesse pessoal. Portanto, ao criticar essa "moral flexível", o narrador demonstra uma clara resistência à relativização dos parâmetros éticos, defendendo implicitamente valores morais mais rígidos e autênticos.

Analisando as alternativas:

  • A) Correta. O narrador critica a moralidade adaptável e de aparências da sociedade, resistindo à ideia de que a ética pode ser relativizada conforme a conveniência.
  • B) Incorreta. O trecho faz exatamente o oposto da idealização: ele expõe as falhas de caráter e a falta de nobreza nas atitudes do personagem.
  • C) Incorreta. O texto não critica a austeridade (rigor moral), mas sim a falta dela, evidenciada pela "moral fácil e cômoda".
  • D) Incorreta. O fragmento não menciona a família. A formação moral de Seixas é atribuída ao convívio social ("ao atrito da secretaria e ao calor das salas").
  • E) Incorreta. O amor não é retratado como fator de aperfeiçoamento, mas de forma cínica, subordinado ao "interesse próprio" onde "tudo é permitido".

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Fonte: prova oficial do ENEM 2020 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.