Questão 29 do ENEM 2020Linguagens

ENEM 2020Linguagens1ª aplicação

Seu delegado

Eu sou viúvo e tenho um filho homem

Arrumei uma viúva e fui me casar

A minha sogra era muito teimosa

Com o meu filho foi se matrimoniar

Desse matrimônio nasceu um garoto

Desde esse dia que eu ando é louco

Esse garoto é filho do meu filho

E o filho da minha sogra é irmão da minha muher

Ele é meu neto e eu sou cunhado dele

A minha nora é minha sogra

Meu filho meu sogro é

Nesse confusão já nem sei quem sou

Acaba esse garoto sendo meu avô.

TRIO FORROZÃO. Agitando a rapaziada. Rio de Janeiro. Natasha Records. 2009.

Nessa letra da canção, a suposição do último verso sinaliza a intenção do autor de
A
ironizar as relações familiares modernas.
reforçar o humor da situação representada.
Resposta correta
C
expressar perplexidade em relação ao parente.
D
atribuir à criança a causa da dúvida existencial.
E
questionar os lugares predeterminados da família
Gabarito oficial: alternativa B

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos primeiro entender o gênero do texto e o tom que ele adota. Trata-se da letra de uma canção popular com um caráter claramente humorístico, funcionando como uma anedota musicada. A narrativa constrói uma teia de parentescos cada vez mais confusa e absurda.

A Escalada do Absurdo

Vamos observar como a confusão é construída passo a passo na letra da música:

Primeiro, o narrador (um homem viúvo com um filho) casa-se com uma viúva. Depois, o filho do narrador casa-se com a sogra do narrador (a mãe da viúva).

A partir desse ponto, a lógica dos parentescos começa a se contorcer. Quando nasce o garoto (filho do filho com a sogra), ele é, ao mesmo tempo, neto do narrador e cunhado dele. A situação vai ficando tão embolada que o narrador conclui, de forma paradoxal, que a nora é a sogra e o filho é o sogro.

O comando da questão foca especificamente no último verso: "Acaba esse garoto sendo meu avô". Logicamente, isso é impossível. O garoto não tem como ser avô do narrador. Então, qual é a função dessa frase?

Na estrutura de uma piada, esse é o clímax, o arremate (a punchline). O autor usa uma hipérbole (um exagero intencional) para levar a confusão ao seu limite máximo. A intenção não é propor um debate biológico ou sociológico, mas sim arrancar o riso do ouvinte pelo puro absurdo da situação.

Análise das Alternativas

A alternativa BB é a correta. O último verso funciona como a "piada final" da anedota. Ao criar uma conclusão completamente ilógica, o autor atinge o ápice do absurdo, tendo como único objetivo maximizar e reforçar o humor da situação que vinha sendo construída desde o início da música.

Vamos entender por que as outras opções não se encaixam:

  • A alternativa AA sugere uma ironia sobre "relações familiares modernas". O texto não tem um tom de crítica social ou moral; é apenas uma brincadeira com a lógica dos parentescos.
  • A alternativa CC é uma armadilha muito comum. Embora o narrador diga que "já nem sei quem sou", expressando perplexidade, essa perplexidade é apenas o meio que o autor usa para fazer o público rir. A intenção final do autor com o verso absurdo é gerar comédia para quem ouve, e não apenas descrever o sentimento do personagem.
  • A alternativa DD erra ao dizer que a criança é a causa da "dúvida existencial". A confusão nasce dos casamentos cruzados, e a dúvida não é filosófica ou existencial, é apenas uma confusão cômica.
  • A alternativa EE tenta, assim como a alternativa AA, atribuir uma profundidade sociológica ao texto (questionar lugares predeterminados), o que foge completamente do tom de humor e entretenimento leve da canção.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2020 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.