Questão 24 do ENEM 2021Linguagens

ENEM 2021Linguagens1ª aplicação

Seus primeiros anos de detento foram difíceis; aos poucos entendeu como o sistema funciona. Apanhou dezenas de vezes, teve o crânio esmagado, o maxilar deslocado, braços e pernas quebrados; por fim, um dia ficou lesionado da perna quando foi jogado da laje de um pavilhão. Nem todas as vezes ele soube por que apanhou, muito menos da última, quando foi deixado para morrer, mas sobreviveu. Seu corpo, moído no inferno, aguarda o fim dos seus dias. Já não questiona mais. Obedece. Cumpre as ordens. Baixa a cabeça e se retira. Apanha, às vezes com motivo, às vezes sem. Por onde passou, derramaram seu sangue. Seu rastro pode ser seguido. Intriga ter sobrevivido durante tantos anos. Pouquíssimos chegaram à terceira idade encarcerados.

MAIA, A. P. Assim na terra como embaixo da terra. Rio de Janeiro: Record, 2017.

A narrativa concentra sua força expressiva no manejo de recursos formais e numa representação ficcional que
A
buscam perpetuar visões do senso comum.
trazem à tona atitudes de um estado de exceção.
Resposta correta
C
promovem a interlocução com grupos silenciados.
D
inspiram o sentimento de justiça por meio da empatia.
E
recorrem ao absurdo como forma de traduzir a realidade.
Gabarito oficial: alternativa B

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar o trecho do romance Assim na terra como embaixo da terra, de Ana Paula Maia, e compreender qual é a principal denúncia ou reflexão que a narrativa constrói por meio de sua representação ficcional.

O texto descreve a trajetória de um detento que, ao longo de seus anos no sistema prisional, é submetido a níveis extremos de violência física e psicológica. Ele tem o crânio esmagado, ossos quebrados e é jogado de uma laje, sobrevivendo a tudo isso apenas para se tornar um indivíduo completamente anulado e submisso: "Já não questiona mais. Obedece. Cumpre as ordens. Baixa a cabeça e se retira".

Um ponto crucial do texto é a arbitrariedade dessa violência: "Apanha, às vezes com motivo, às vezes sem". Essa ausência de regras, de direitos humanos básicos e de qualquer amparo legal dentro do ambiente carcerário nos remete ao conceito de estado de exceção.

Na ciência política e no direito, o "estado de exceção" ocorre quando o poder soberano suspende a validade das leis e os direitos dos cidadãos, passando a agir de forma arbitrária e violenta, sem que haja punição para os agressores. No contexto da narrativa, a prisão funciona exatamente como um microcosmo desse estado de exceção: um lugar onde a lei não chega, os direitos constitucionais são ignorados e a vida humana é descartável.

Analisando as alternativas:

  • A está incorreta, pois a literatura contemporânea de denúncia busca justamente romper com o senso comum (como a ideia de que a violência prisional é justificada), e não perpetuá-lo.
  • B está correta. A narrativa traz à tona as atitudes de um estado de exceção, evidenciado pela violência arbitrária e pela suspensão dos direitos básicos do detento.
  • C está incorreta. Embora o texto retrate um grupo silenciado, ele não promove uma "interlocução" (um diálogo direto) com esse grupo, mas sim expõe a sua condição.
  • D está incorreta. O tom da narrativa é cru, seco e brutal. Seu objetivo principal é chocar e denunciar a desumanização, e não necessariamente inspirar um sentimento de justiça por meio da empatia.
  • E está incorreta. A violência descrita, por mais chocante que seja, não é tratada como um "absurdo" no sentido literário (como no surrealismo ou nas obras de Kafka), mas sim como uma realidade brutal e naturalista do sistema carcerário.

Portanto, a força expressiva do texto reside em denunciar como o sistema prisional opera à margem da lei, configurando um verdadeiro estado de exceção.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2021 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.