Questão 15 do ENEM 2024Linguagens

ENEM 2024LinguagensPPL

Sim, ela sentia dentro de si um animal perfeito. Repugnava-lhe deixar um dia esse animal solto. Por medo talvez da falta de estética. Ou receio de alguma revelação... Não, não, — repetia-se ela — é preciso não ter medo de criar. No fundo de tudo possivelmente o animal repugnava-lhe porque ainda havia nela o desejo de agradar e de ser amada por alguém poderoso como a tia morta. Para depois no entanto pisá-la, repudiá-la sem contemplações. Porque a melhor frase, sempre ainda a mais jovem, era: a bondade me dá ânsias de vomitar. A bondade era morna e leve, cheirava a carne crua guardada há muito tempo. Sem apodrecer inteiramente apesar de tudo. Refrescavam-na de quando em quando, botavam um pouco de tempero, o suficiente para conservá-la um pedaço de carne morna e quieta.

LISPECTOR, C. Perto do coração selvagem. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.

Nessa passagem, a reflexão feita pela personagem resulta da sua tomada de consciência da
A
inclinação do ser humano para o egoísmo que se manifesta na relação familiar.
B
violência sofrida pelos membros da família que gera sentimentos de revolta.
dissimulação praticada em nome da convivência social e das aparências morais.
Resposta correta
D
dificuldade de relacionamento entre as gerações que compõem o núcleo da casa.
E
postura de desdém pela memória da tia morta que representava a autoridade.
Gabarito oficial: alternativa C

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar cuidadosamente o fluxo de consciência da personagem no trecho de Perto do coração selvagem, de Clarice Lispector, e entender o que motiva sua reflexão.

No início do texto, a personagem revela sentir dentro de si um "animal perfeito" (que representa seus instintos, sua essência mais selvagem e autêntica). No entanto, ela reprime esse lado por "falta de estética" e pelo "desejo de agradar e de ser amada". Essa repressão evidencia que ela molda seu comportamento para se adequar ao que é socialmente aceito e esperado, escondendo sua verdadeira natureza.

Em seguida, ela reflete sobre a "bondade", afirmando que esta lhe dá "ânsias de vomitar". A personagem constrói uma metáfora forte, comparando a bondade a uma "carne crua guardada há muito tempo", que não apodrece inteiramente porque as pessoas a "refrescavam" e "botavam um pouco de tempero" apenas o suficiente para conservá-la. Essa imagem grotesca ilustra a percepção da personagem de que a bondade, no contexto em que vive, não é genuína. Trata-se de algo artificial, mantido apenas para sustentar as aparências e garantir a convivência.

Analisando as alternativas:

  • A está incorreta, pois o foco da reflexão não é o egoísmo humano restrito à relação familiar, mas sim a falsidade das relações em geral.
  • B está incorreta, pois o texto não aborda violência sofrida pelos membros da família.
  • C está correta. A personagem toma consciência de que as pessoas (incluindo ela mesma, em certa medida) reprimem seus instintos e forjam uma "bondade" artificial apenas para manter as aparências morais e garantir a aceitação na convivência social.
  • D está incorreta, pois o conflito de gerações não é o tema central da reflexão.
  • E está incorreta. Embora ela mencione a tia morta e o desejo de "pisá-la", isso é apenas um exemplo de como ela lida com a figura de autoridade e o desejo de agradar, não sendo a causa principal de sua reflexão sobre a natureza humana e a bondade.

Portanto, a reflexão resulta da percepção da hipocrisia e da dissimulação nas relações sociais.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2024 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.