Questão 98 do ENEM 2014Linguagens

ENEM 2014Linguagens2ª aplicação

Soneto

 

Oh! Páginas da vida que eu amava,
Rompei-vos! nunca mais! tão desgraçado!…
Ardei, lembranças doces do passado!
Quero rir-me de tudo que eu amava!

E que doido que eu fui!como eu pensava
Em mãe, amor de irmã! em sossegado
Adormecer na vida acalentado
Pelos lábios que eu tímido beijava!

Embora — é meu destino. Em treva densa
Dentro do peito a existência finda
Pressinto a morte na fatal doença!

A mim a solidão da noite infinda
Possa dormir o trovador sem crença.
Perdoa minha mãe — eu te amo ainda!

AZEVEDO, A. Lira dos vinte anos. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

A produção de Álvares de Azevedo situa-se na década de 1850, período conhecido na literatura brasileira como Ultrarromantismo. Nesse poema, a força expressiva da exacerbação romântica identifica-se com a(o)
A
amor materno, que surge como possibilidade de salvação para o eu lírico.
B
saudosismo da infância, indicado pela menção às figuras da mãe e da irmã.
C
construção de versos irônicos e sarcásticos, apenas com aparência melancólica.
D
presença do tédio sentido pelo eu lírico, indicado pelo seu desejo de dormir.
fixação do eu lírico pela ideia da morte, o que o leva a sentir um tormento constante.
Resposta correta
Gabarito oficial: alternativa E

Resolução comentada

Para resolvermos essa questão, precisamos relembrar as principais características da Segunda Geração do Romantismo no Brasil, também conhecida como Ultrarromantismo ou Mal do Século. Álvares de Azevedo é o principal representante dessa fase, que foi fortemente influenciada pelo poeta inglês Lord Byron.

Os autores ultrarromânticos eram marcados por um profundo pessimismo, melancolia, egocentrismo exacerbado e uma constante insatisfação com a realidade. Como forma de escapar desse sofrimento (evasionismo), eles frequentemente recorriam à idealização da infância, ao sonho e, principalmente, à morte, vista como a única solução definitiva para as dores da existência.

Ao analisarmos o soneto de Álvares de Azevedo, percebemos claramente o tom de desespero e sofrimento do eu lírico logo nos primeiros versos: "Rompei-vos! nunca mais! tão desgraçado!… / Ardei, lembranças doces do passado!". Ele rompe com as lembranças felizes e demonstra um tormento profundo.

Na segunda estrofe, ele lamenta ter acreditado na felicidade e no conforto familiar ("E que doido que eu fui! como eu pensava / Em mãe, amor de irmã!").

O clímax do poema, que revela a essência da exacerbação romântica, ocorre nos tercetos finais. O eu lírico descreve uma "treva densa" em seu peito e declara: "Pressinto a morte na fatal doença!". O desejo de "dormir" ("Possa dormir o trovador sem crença") não é um simples sono motivado pelo tédio, mas sim uma metáfora para o sono eterno, ou seja, a morte, que trará o fim de sua "existência finda".

Vamos analisar as alternativas:

  • A) Incorreta. O amor materno é citado, mas não como uma possibilidade de salvação. Pelo contrário, o eu lírico lamenta ter acreditado que isso lhe traria paz ("E que doido que eu fui!").
  • B) Incorreta. Embora haja menção à mãe e à irmã, o saudosismo da infância não é a força expressiva principal do poema, que é dominado pelo desespero e pela iminência da morte.
  • C) Incorreta. Não há ironia ou sarcasmo; a melancolia, a dor e o desespero do eu lírico são genuínos e profundos.
  • D) Incorreta. O desejo de dormir mencionado no poema refere-se à morte (o sono eterno), e não a um simples tédio.
  • E) Correta. A força expressiva do poema reside justamente na fixação do eu lírico pela ideia da morte ("Pressinto a morte na fatal doença!"), que é a consequência de seu tormento constante e de sua desilusão com a vida.

Portanto, a alternativa correta é a E.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2014 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.