Questão 123 do ENEM 2012Linguagens

ENEM 2012Linguagens1ª aplicação

Sou feliz pelos amigos que tenho. Um deles muito sofre pelo meu descuido com o vernáculo. Por alguns anos ele sistematicamente me enviava missivas eruditas com precisas informações sobre as regras da gramática, que eu não respeitava, e sobre a grafia correta dos vocábulos, que eu ignorava. Fi-lo sofrer pelo uso errado que fiz de uma palavra num desses meus badulaques. Acontece que eu, acostumado a conversar com a gente das Minas Gerais, falei em “varreção” — do verbo “varrer”. De fato, trata-se de um equívoco que, num vestibular, poderia me valer uma reprovação. Pois o meu amigo, paladino da língua portuguesa, se deu ao trabalho de fazer um xerox da página 827 do dicionário, aquela que tem, no topo, a fotografia de uma “varroa”(sic!) (você não sabe o que é uma “varroa”?) para corrigir me do meu erro. E confesso: ele está certo. O certo é “varrição” e não “varreção”. Mas estou com medo de que os mineiros da roça façam troça de mim porque nunca os vi falar de “varrição”. E se eles rirem de mim não vai me adiantar mostrar-lhes o xerox da página do dicionário com a “varroa” no topo. Porque para eles não é o dicionário que faz a língua. É o povo. E o povo, lá nas montanhas de Minas Gerais, fala “varreção” quando não “barreção”. O que me deixa triste sobre esse amigo oculto é que nunca tenha dito nada sobre o que eu escrevo, se é bonito ou se é feio. Toma a minha sopa, não diz nada sobre ela, mas reclama sempre que o prato está rachado.

ALVES, R. Mais badulaques. São Paulo: Parábola, 2004 (fragmento).

De acordo com o texto, após receber a carta de um amigo “que se deu ao trabalho de fazer um xerox da página 827 do dicionário” sinalizando um erro de grafia, o autor reconhece
A
a supremacia das formas da língua em relação ao seu conteúdo.
a necessidade da norma padrão em situações formais de comunicação escrita.
Resposta correta
C
a obrigatoriedade da norma culta da língua, para a garantia de uma comunicação efetiva.
D
a importância da variedade culta da língua, para a preservação da identidade cultural de um povo.
E
a necessidade do dicionário como guia de adequação linguística em contextos informais privados.
Gabarito oficial: alternativa B

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar a atitude do autor diante da correção feita pelo amigo e identificar exatamente o que ele admite ser válido nessa situação.

No texto, Rubem Alves relata que um amigo o corrigiu por usar a palavra "varreção" em vez de "varrição". O autor faz uma forte defesa da variação linguística, argumentando que a língua é viva e feita pelo povo, citando como exemplo a fala dos "mineiros da roça". Ele também critica a postura purista do amigo, que se preocupa mais com a forma (o "prato rachado") do que com o conteúdo da mensagem (a "sopa").

No entanto, no meio de sua reflexão, o autor faz uma concessão importante. Ele escreve: "De fato, trata-se de um equívoco que, num vestibular, poderia me valer uma reprovação."

Ao mencionar o vestibular, o autor está reconhecendo a existência de um conceito fundamental na linguística: a adequação linguística. Embora a fala popular seja legítima e garanta a comunicação no dia a dia, existem contextos específicos — como situações formais de comunicação escrita (provas, documentos, redações) — em que o domínio e o uso da norma padrão são exigidos.

Vamos analisar as alternativas com base nisso:

A) a supremacia das formas da língua em relação ao seu conteúdo. Incorreta. O autor critica exatamente essa postura no amigo, usando a metáfora de que ele "toma a minha sopa, não diz nada sobre ela, mas reclama sempre que o prato está rachado".

B) a necessidade da norma padrão em situações formais de comunicação escrita. Correta. É exatamente isso que ele admite ao citar o vestibular. Ele reconhece que, em um contexto formal de avaliação escrita, o desvio da norma padrão (escrever "varreção" em vez de "varrição") seria penalizado.

C) a obrigatoriedade da norma culta da língua, para a garantia de uma comunicação efetiva. Incorreta. O autor deixa claro que a comunicação com o povo de Minas Gerais é perfeitamente efetiva usando a variedade regional ("varreção" ou "barreção"). A norma culta não é obrigatória para que as pessoas se entendam.

D) a importância da variedade culta da língua, para a preservação da identidade cultural de um povo. Incorreta. No texto, o que preserva a identidade cultural e reflete a vivência do povo das montanhas de Minas Gerais é a variedade popular, e não a norma culta.

E) a necessidade do dicionário como guia de adequação linguística em contextos informais privados. Incorreta. O autor afirma o oposto: se ele mostrasse o dicionário para os mineiros da roça (um contexto informal), eles fariam "troça" dele, pois, para o povo, a língua se faz no uso cotidiano, e não nos livros.

Portanto, o autor reconhece que a norma padrão tem o seu lugar e a sua necessidade em contextos formais específicos.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2012 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.