Questão 128 do ENEM 2014Linguagens

ENEM 2014Linguagens1ª aplicação

Tarefa

Morder o fruto amargo e não cuspir
Mas avisar aos outros quanto é amargo
Cumprir o trato injusto e não falhar
Mas avisar aos outros quanto é injusto
Sofrer o esquema falso e não ceder
Mas avisar aos outros quanto é falso
Dizer também que são coisas mutáveis…
E quando em muitos a não pulsar
— do amargo e injusto e falso por mudar —
então confiar à gente exausta o plano
de um mundo novo e muito mais humano.

CAMPOS, G. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1981.

Na organização do poema, os empregos da conjunção “mas” articulam, para além de sua função sintática,
A
a ligação entre verbos semanticamente semelhantes.
B
a oposição entre ações aparentemente inconciliáveis.
a introdução do argumento mais forte de uma sequência.
Resposta correta
D
o reforço da causa apresentada no enunciado introdutório.
E
a intensidade dos problemas sociais presentes no mundo.
Gabarito oficial: alternativa C

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar o poema e entender o papel da conjunção "mas" dentro da construção de sentido do texto, indo além da sua classificação gramatical básica.

O poema de Geir Campos é construído a partir de uma série de ações contrastantes. Em cada estrofe, temos uma primeira atitude de resignação ou resistência passiva diante de uma adversidade:

  • "Morder o fruto amargo e não cuspir"
  • "Cumprir o trato injusto e não falhar"
  • "Sofrer o esquema falso e não ceder"

Logo em seguida, a conjunção "mas" introduz uma segunda atitude, que é ativa e voltada para o coletivo:

  • "Mas avisar aos outros quanto é amargo"
  • "Mas avisar aos outros quanto é injusto"
  • "Mas avisar aos outros quanto é falso"

Sintaticamente, o "mas" é uma conjunção coordenativa adversativa, usada para ligar orações que expressam ideias opostas ou de contraste. No entanto, na argumentação, a conjunção "mas" tem uma função muito específica: ela introduz o argumento mais forte. Quando dizemos algo na estrutura "A, mas B", a ideia que prevalece e que carrega o foco principal da mensagem é sempre a "B".

No contexto do poema, a verdadeira "tarefa" do eu lírico não é apenas suportar o sofrimento (o fruto amargo, o trato injusto, o esquema falso), mas sim a ação que vem depois do "mas": a denúncia, a conscientização dos outros e, por fim, a construção de "um mundo novo e muito mais humano". Portanto, o "mas" serve para dar destaque à ação transformadora, colocando-a como o ponto central e mais importante da sequência.

Analisando as alternativas:

  • A está incorreta, pois os verbos ligados não são semanticamente semelhantes (ex: "morder" e "avisar" têm sentidos bem diferentes).
  • B está incorreta, pois as ações não são inconciliáveis; o eu lírico propõe justamente que ambas sejam feitas simultaneamente (suportar a dor e, ao mesmo tempo, denunciá-la).
  • C está correta, pois, como vimos, o "mas" introduz a ação principal, o argumento mais forte e a verdadeira mensagem de cada estrofe.
  • D está incorreta, pois o "mas" não reforça uma causa, mas introduz uma nova postura diante do problema.
  • E está incorreta, pois a intensidade dos problemas sociais é marcada pelos adjetivos ("amargo", "injusto", "falso"), e não pela conjunção.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2014 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.