Questão 81 do ENEM 2025Ciências Humanas

ENEM 2025Ciências HumanasBelém

TEXTO I

A diferença entre um e outro homem não é suficientemente considerável para que qualquer um possa com base nela reclamar qualquer benefício a que o outro não possa também aspirar, tal como ele. Portanto, se dois homens desejam a mesma coisa, ao mesmo tempo em que é impossível ela ser gozada por ambos, eles tornam-se inimigos.

HOBBES, T. Leviatã. São Paulo: Abril, 1980.

TEXTO II

Nada é mais meigo do que o homem em seu estado primitivo, quando, colocado pela natureza entre a estupidez dos brutos e as luzes funestas do homem civil, e compelido tanto pelo instinto quanto pela razão a defender-se do mal que o ameaça, é impedido pela piedade natural de fazer mal a alguém sem ser a isso levado por alguma coisa ou mesmo depois de atingido por algum mal.

ROUSSEAU, J.-J. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. São Paulo: Abril, 1978.

Comparando-se os textos dos contratualistas, verifica-se que eles apresentam um traço constitutivo dos homens no estado de natureza, caracterizado pela
A
tendência à autopreservação.
B
expressão da inocência.
condição de igualdade.
Resposta correta
D
estima à propriedade.
E
vontade de poder.
Gabarito oficial: alternativa C

Resolução comentada

A questão pede o traço comum que os dois contratualistas atribuem aos homens no estado de natureza. Convém ler cada trecho com atenção ao que ele de fato afirma.

No Texto I, Hobbes começa dizendo que "a diferença entre um e outro homem não é suficientemente considerável para que qualquer um possa com base nela reclamar qualquer benefício a que o outro não possa também aspirar". Ou seja, ele estabelece uma igualdade de capacidades: ninguém é tão superior a ponto de ter privilégios naturais. É justamente essa igualdade que, quando dois desejam a mesma coisa, os torna inimigos.

No Texto II, Rousseau descreve o homem em seu estado primitivo como "meigo", colocado "pela natureza entre a estupidez dos brutos e as luzes funestas do homem civil" e impedido "pela piedade natural de fazer mal a alguém". Esse homem primitivo, movido por instinto e piedade e ainda sem as distinções da vida civil, vive numa condição de igualdade original, anterior às desigualdades que a sociedade viria a criar.

Comparando os dois trechos, o elemento explicitamente compartilhado é a igualdade: em Hobbes, igualdade de capacidades entre os homens; em Rousseau, a igualdade natural do homem primitivo, antes das hierarquias civis.

Analisando as alternativas:

A) tendência à autopreservação. Ambos os textos tocam na defesa/sobrevivência (a disputa por bens em Hobbes; o instinto de defender-se do mal em Rousseau), mas o traço que aparece explicitamente comparável nos dois trechos é a igualdade de condição, não a autopreservação. Por isso não é a melhor resposta.

B) expressão da inocência. A meiguice e a inocência do "bom selvagem" são próprias de Rousseau; em Hobbes, o estado de natureza é marcado por disputa e inimizade. Não é traço comum.

C) condição de igualdade. Correta. Hobbes afirma a igualdade de capacidades; Rousseau pressupõe a igualdade original do homem primitivo. É o traço presente nos dois textos.

D) estima à propriedade. A propriedade não é traço do estado de natureza: em Hobbes ela só existe sob o poder do Estado; em Rousseau, é a causa da saída do estado de natureza e do início da corrupção.

E) vontade de poder. A "vontade de poder" é categoria posterior (Nietzsche), estranha aos dois trechos, e não descreve o homem de Rousseau.

Portanto, o traço constitutivo comum aos dois textos é a condição de igualdade.

Ainda com dúvida nesta questão?

Crie sua conta gratuita e peça ao Darwin, o tutor de IA do Alvo, para explicar do seu jeito — e treine questões como esta na sua trilha adaptativa.

Fonte: prova oficial do ENEM 2025 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.