Questão 18 do ENEM 2011Ciências Humanas

ENEM 2011Ciências Humanas2ª aplicação

Texto I

A escravidão não é algo que permaneça apesar do sucesso das três revoluções liberais, a inglesa, a norte americana e a francesa; ao contrário, ela conhece o seu máximo desenvolvimento em virtude desse sucesso. O que contribui de forma decisiva para o crescimento dessa instituição, que é sinônimo de poder absoluto do homem sobre o homem, é o mundo liberal.

Losurdo, D. Contra-história do liberalismo. Aparecida: Ideias & Letras, 2006 (adaptado).

Texto II

E, sendo uma economia de exploração do homem, o capitalismo tanto comercializou escravos para o Brasil, o Caribe e o sul dos Estados Unidos, nas décadas de 30, 40, 50 e 60 do século XIX, como estabeleceu o comércio de trabalhadores chineses para Cuba e o fluxo de emigrantes europeus para os Estados Unidos e o Canadá. O tráfico negreiro se manteve para o Brasil depois de sua proibição, pela lei de 1831, porque ainda ofereceu respostas ao capitalismo.

Tavares, L. H. D. Comércio proibido de escravos. São Paulo: Ática, 1988 (adaptado).

Ambos os textos apontam para uma relação entre escravidão e capitalismo no século XIX. Que relação é essa?
A
A imposição da escravidão à América pelo capitalismo.
B
A escravidão na América levou à superação do capitalismo.
A contribuição da escravidão para o desenvolvimento do sistema capitalista.
Resposta correta
D
A superação do ideário capitalista em razão do regime escravocrata.
E
A fusão dos sistemas escravocrata e capitalista, originando um novo sistema.
Gabarito oficial: alternativa C

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar com cuidado os argumentos apresentados nos dois textos de apoio. Ambos trazem uma visão que muitas vezes contraria o senso comum sobre a relação entre a escravidão e o mundo liberal-capitalista.

O Texto I nos mostra um aparente paradoxo: as revoluções liberais (inglesa, norte-americana e francesa), que teoricamente tinham como bandeira a defesa da liberdade e dos direitos individuais, não acabaram com a escravidão. Pelo contrário, o autor afirma que a escravidão conheceu o seu "máximo desenvolvimento" justamente em virtude do sucesso desse mundo liberal. Ou seja, o liberalismo político e econômico não foi um inimigo da escravidão na prática.

O Texto II reforça essa ideia ao focar na dinâmica econômica. O autor explica que o capitalismo, sendo um sistema baseado na exploração, utilizou o comércio de escravizados (e também de outros trabalhadores explorados, como os chineses e europeus pobres) porque isso "ofereceu respostas ao capitalismo". Em outras palavras, o tráfico negreiro e o trabalho escravo eram negócios extremamente lucrativos que forneciam a mão de obra barata e o acúmulo de riquezas necessários para a engrenagem capitalista girar.

Juntando as duas ideias, percebemos que a escravidão não foi um sistema atrasado que o capitalismo precisou destruir para nascer. Na verdade, a escravidão funcionou como uma base de acumulação de capital, sendo uma peça fundamental que impulsionou e financiou o desenvolvimento do próprio sistema capitalista no século XIX.

Analisando as alternativas:

  • A alternativa A está incorreta porque o capitalismo não "impôs" a escravidão de fora para dentro; a escravidão já existia e foi apropriada e expandida pela lógica de acumulação capitalista.
  • As alternativas B e D estão incorretas porque afirmam que o capitalismo ou seus ideais foram "superados" pela escravidão, o que não ocorreu. O capitalismo continuou a se expandir e se consolidar.
  • A alternativa E fala em uma "fusão" originando um "novo sistema", o que também é incorreto. O sistema continuou sendo o capitalista, que apenas se utilizou de relações escravistas em suas periferias para se fortalecer.
  • A alternativa C é a correta, pois sintetiza perfeitamente a mensagem dos textos: a escravidão foi uma instituição que contribuiu de forma decisiva para o crescimento e o desenvolvimento do sistema capitalista.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2011 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.