Questão 14 do ENEM 2022Linguagens

ENEM 2022Linguagens1ª aplicação

TEXTO I
A língua não é uma nomenclatura, que se apõe a uma realidade pré-categorizada, ela é que classifica a realidade. No léxico, percebe-se, de maneira mais imediata, o fato de que a língua condensa as experiências de um dado povo.

FIORIN, J. L Língua, modernidade e tradição. Diversitas, n. 2. mar-set 2014

TEXTO II
As expressões coloquiais ainda estão impregnadas de discriminação contra os negros. Basta recordar algumas delas, como passar um “dia negro”, ter um “lado negro”, ser a “ovelha negra” da família ou praticar “magia negra”.

Disponível em: https://brasil.elpais.com Acesso em: 22 maio 2018.

O Texto II exemplifica o que se afirma no Texto I, na medida em que defende a ideia de que as escolhas lexicais são resultantes de um
A
expediente próprio do sistema linguístico que nos apresenta diferentes possibilidades para traduzir estados de coisas.
B
ato inventivo de nomear novas realidades que surgem diante de uma comunidade de falantes de uma língua.
C
mecanismo de apropriação de formas linguísticas que estão no acervo da formação do idioma nacional.
processo de incorporação de preconceitos que são recorrentes na história de uma sociedade.
Resposta correta
E
recurso de expressão marcado pela objetividade que se requer na comunicação diária.
Gabarito oficial: alternativa D

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos compreender a relação entre a teoria apresentada no Texto I e os exemplos práticos trazidos no Texto II.

O Texto I traz uma reflexão linguística profunda: a língua não é apenas um conjunto de etiquetas neutras que colamos nas coisas. Pelo contrário, ela "classifica a realidade" e "condensa as experiências de um dado povo". Isso significa que o vocabulário (o léxico) de um idioma funciona como um arquivo histórico, guardando a forma como uma sociedade pensa, vive e enxerga o mundo ao longo do tempo.

O Texto II, por sua vez, ilustra essa teoria com um problema real e histórico: o racismo. Ele mostra como expressões do nosso dia a dia, como "dia negro", "ovelha negra" ou "magia negra", associam a palavra "negro" a coisas negativas, ruins ou erradas.

Quando cruzamos as duas informações, percebemos que essas expressões racistas não surgiram do nada. Se a língua guarda as experiências de um povo (Texto I) e o nosso vocabulário está cheio de termos discriminatórios (Texto II), concluímos que as palavras que usamos refletem os preconceitos enraizados na história da nossa sociedade. A escravidão e o racismo estrutural deixaram marcas profundas não apenas nas relações sociais, mas também no nosso idioma.

Análise das Alternativas

A) Incorreta. A alternativa sugere que a língua é um sistema neutro que apenas "traduz estados de coisas". O Texto II mostra exatamente o oposto: a língua carrega julgamentos de valor e preconceitos, não sendo neutra.

B) Incorreta. O texto não fala sobre a invenção de palavras para nomear "novas realidades" (como termos de tecnologia, por exemplo), mas sim sobre expressões antigas que carregam o peso de um passado histórico discriminatório.

C) Incorreta. Dizer que é apenas um "mecanismo de apropriação de formas linguísticas" é muito vago e ignora o ponto central do Texto II, que é a denúncia da discriminação e do racismo presentes nessas formas.

D) Correta. A alternativa sintetiza perfeitamente a relação entre os textos. A "incorporação de preconceitos" dialoga com a discriminação citada no Texto II, e a "história de uma sociedade" corresponde às "experiências de um dado povo" mencionadas no Texto I.

E) Incorreta. Expressões como "ovelha negra" são figuradas, subjetivas e carregadas de juízo de valor. Elas passam longe da "objetividade" mencionada na alternativa, pois o preconceito é, por natureza, o oposto da objetividade.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2022 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.