Questão 80 do ENEM 2017Ciências Humanas

ENEM 2017Ciências Humanas2ª aplicação

TEXTO I
A Resolução n° 7 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) passou a disciplinar o exercício do nepotismo cruzado, isto é, a troca de parentes entre agentes para que tais parentes sejam contratados diretamente, sem concurso. Exemplificando: o desembargador A nomeia como assessor o filho do desembargador B que, em contrapartida, nomeia o filho deste como seu assessor.

COSTA, W. S. Do nepotismo cruzado: características e pressupostos. Jusnavigandi, n. 950, 8 fev. 2006.

 

TEXTO II
No Brasil, pode-se dizer que só excepcionalmente
tivemos um sistema administrativo e um corpo de
funcionários puramente dedicados a interesses objetivos
e fundados nesses interesses.

HOLANDA, S. B. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1993.

A administração pública no Brasil possui raízes históricas marcadas pela
A
valorização do mérito individual.
B
punição dos desvios de conduta.
C
distinção entre o público e o privado.
prevalência das vontades particulares.
Resposta correta
E
obediência a um ordenamento impessoal
Gabarito oficial: alternativa D

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar a relação entre as práticas políticas contemporâneas e a formação histórica do Estado brasileiro, apoiando-nos no pensamento social brasileiro.

O Texto I apresenta um exemplo prático de uma distorção na administração pública: o "nepotismo cruzado". Essa prática consiste na troca de favores entre agentes públicos para empregar seus parentes, burlando a exigência de concursos públicos. Ou seja, o interesse familiar e pessoal se sobrepõe ao interesse público e à lei.

O Texto II traz um trecho da obra clássica Raízes do Brasil, do sociólogo e historiador Sérgio Buarque de Holanda. O autor aponta que, historicamente, o Brasil raramente teve uma administração pública pautada por interesses objetivos e impessoais.

Esses dois textos dialogam diretamente com o conceito de patrimonialismo, formulado originalmente por Max Weber e amplamente utilizado por pensadores como Sérgio Buarque de Holanda e Raymundo Faoro para explicar a política brasileira. O patrimonialismo ocorre quando não há uma separação clara entre o que é público (do Estado) e o que é privado (do governante ou do funcionário). Na prática, o agente público trata a máquina estatal como se fosse uma extensão de sua própria casa, de sua família ou de seus negócios pessoais.

Vamos analisar as alternativas com base nesse raciocínio:

  • A) valorização do mérito individual: Incorreta. O nepotismo é exatamente o oposto da meritocracia, pois a contratação se dá por laços de sangue ou amizade, e não pela competência ou aprovação em concurso.
  • B) punição dos desvios de conduta: Incorreta. Embora o Texto I mostre uma tentativa do Conselho Nacional de Justiça (através da Resolução n° 77) de barrar essa prática, as "raízes históricas" citadas no comando da questão são marcadas pela tolerância e normalização desses desvios, e não por sua punição.
  • C) distinção entre o público e o privado: Incorreta. Como vimos no conceito de patrimonialismo, a marca histórica do Brasil é justamente a confusão ou a falta de distinção entre essas duas esferas.
  • D) prevalência das vontades particulares: Correta. A contratação de parentes e a troca de favores evidenciam que as vontades e os interesses privados (particulares) se sobrepõem ao interesse coletivo e objetivo da administração pública.
  • E) obediência a um ordenamento impessoal: Incorreta. A impessoalidade é um princípio da administração burocrática moderna, que exige que todos sejam tratados de forma igual, sem privilégios. O nepotismo é uma prática profundamente pessoal, baseada em afetos e privilégios.

Portanto, a administração pública no Brasil possui raízes históricas marcadas pela prevalência dos interesses privados sobre os públicos, o que valida a alternativa D.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2017 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.