TEXTO I
Questão 42 do ENEM 2016 — Linguagens
Resolução comentada
Esta questão pede que você relacione uma imagem (o tríptico de Francis Bacon) e um texto literário (o trecho de Marguerite Duras) para identificar por que o rosto humano aparece deformado ou fragmentado na arte e na literatura modernas.
Análise dos dois textos
- Texto I: O tríptico de Bacon, intitulado Três estudos para um autorretrato, apresenta o rosto do próprio artista em três painéis. As feições aparecem borradas e alteradas, sem o acabamento nítido do retrato clássico. O próprio título, ao desdobrar o autorretrato em três "estudos", já sugere uma subjetividade fragmentada, vista de vários ângulos, e não uma imagem única e estável.
- Texto II: No trecho de Marguerite Duras, a narradora descreve o próprio rosto como "lacerado", com "sulcos" e afirma diretamente: "Tenho um rosto destruído". A ideia de destruição da matéria do rosto é dada explicitamente pelo texto.
Os dois autorretratos, portanto, convergem em representar o "eu" de forma abalada, deformada, e não idealizada.
O que motiva essa deformação na modernidade
A arte moderna reflete o mundo em que os artistas viveram. Dois fatores do século XX foram decisivos para essa nova maneira de representar o ser humano:
- As catástrofes históricas: o século XX foi marcado por horrores como as duas Guerras Mundiais, o Holocausto, as bombas atômicas e os regimes totalitários. Esses eventos abalaram a visão otimista e racional que se tinha da humanidade. A barbárie deixou traumas profundos, e a arte passou a expressar um mundo violento e desfeito — o "rosto destruído" funciona como metáfora dessa humanidade ferida.
- A psicanálise: no início do século XX, Freud desenvolveu a psicanálise e revelou a existência do inconsciente. Descobriu-se que o ser humano não é puramente racional, mas movido por desejos reprimidos, traumas e conflitos internos. A mente passou a ser vista como complexa e fragmentada, e a arte buscou representar essa realidade psíquica deformando o exterior (o rosto) para mostrar o interior.
Conclusão
A fragmentação e a deformação do rosto na arte e na literatura modernas não são escolhas aleatórias: expressam um sujeito abalado pelas catástrofes do século XX e cuja interioridade complexa foi revelada pela psicanálise. A alternativa que reúne esses dois pilares é a B.
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Fonte: prova oficial do ENEM 2016 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.