Questão 42 do ENEM 2016Linguagens

ENEM 2016Linguagens1ª aplicação

TEXTO I

BACON, F. Três estudos para um autorretrato. Óleo sobre tela, 37,5 x 31,8 cm (cada), 1974.
Disponível em: www.metmuseum.org. Acesso em: 30 maio 2016.

TEXTO II
Tenho um rosto lacerado por rugas secas e profundas, sulcos na pele. Não é um rosto desfeito, como acontece com pessoas de traços delicados, o contorno é o mesmo mas a matéria foi destruída. Tenho um rosto destruído.

DURAS, M. O amante. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

Na imagem e no texto do romance de Marguerite Duras, os dois autorretratos apontam para o modo de representação da subjetividade moderna. Na pintura e na literatura modernas, o rosto humano deforma-se, destrói-se ou fragmenta-se em razão
A
da adesão à estética do grotesco, herdada do romantismo europeu, que trouxe novas possibilidades de representação.
das catástrofes que assolaram o século XX e da descoberta de uma realidade psíquica pela psicanálise.
Resposta correta
C
da opção em demonstrarem oposição aos limites estéticos da revolução permanente trazida pela arte moderna.
D
do posicionamento do artista do século XX contra a negação do passado, que se torna prática dominante na sociedade burguesa.
E
da intenção de garantir uma forma de criar obras de arte independentes da matéria presente em sua história pessoal.
Gabarito oficial: alternativa B

Resolução comentada

Esta questão pede que você relacione uma imagem (o tríptico de Francis Bacon) e um texto literário (o trecho de Marguerite Duras) para identificar por que o rosto humano aparece deformado ou fragmentado na arte e na literatura modernas.

Análise dos dois textos

  • Texto I: O tríptico de Bacon, intitulado Três estudos para um autorretrato, apresenta o rosto do próprio artista em três painéis. As feições aparecem borradas e alteradas, sem o acabamento nítido do retrato clássico. O próprio título, ao desdobrar o autorretrato em três "estudos", já sugere uma subjetividade fragmentada, vista de vários ângulos, e não uma imagem única e estável.
  • Texto II: No trecho de Marguerite Duras, a narradora descreve o próprio rosto como "lacerado", com "sulcos" e afirma diretamente: "Tenho um rosto destruído". A ideia de destruição da matéria do rosto é dada explicitamente pelo texto.

Os dois autorretratos, portanto, convergem em representar o "eu" de forma abalada, deformada, e não idealizada.

O que motiva essa deformação na modernidade

A arte moderna reflete o mundo em que os artistas viveram. Dois fatores do século XX foram decisivos para essa nova maneira de representar o ser humano:

  1. As catástrofes históricas: o século XX foi marcado por horrores como as duas Guerras Mundiais, o Holocausto, as bombas atômicas e os regimes totalitários. Esses eventos abalaram a visão otimista e racional que se tinha da humanidade. A barbárie deixou traumas profundos, e a arte passou a expressar um mundo violento e desfeito — o "rosto destruído" funciona como metáfora dessa humanidade ferida.
  2. A psicanálise: no início do século XX, Freud desenvolveu a psicanálise e revelou a existência do inconsciente. Descobriu-se que o ser humano não é puramente racional, mas movido por desejos reprimidos, traumas e conflitos internos. A mente passou a ser vista como complexa e fragmentada, e a arte buscou representar essa realidade psíquica deformando o exterior (o rosto) para mostrar o interior.

Conclusão

A fragmentação e a deformação do rosto na arte e na literatura modernas não são escolhas aleatórias: expressam um sujeito abalado pelas catástrofes do século XX e cuja interioridade complexa foi revelada pela psicanálise. A alternativa que reúne esses dois pilares é a B.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2016 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.