Questão 22 do ENEM 2015Ciências Humanas

ENEM 2015Ciências Humanas1ª aplicação

TEXTO I

Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até o esgotamento completo. Vencido palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados.

CUNHA, E. Os sertões. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1987.

TEXTO II

Na trincheira, no centro do reduto, permaneciam quatro fanáticos sobreviventes do extermínio. Era um velho, coxo por ferimento e usando uniforme da Guarda Católica, um rapaz de 16 a 18 anos, um preto alto e magro, e um caboclo. Ao serem intimados para deporem as armas, investiram com enorme fúria. Assim estava terminada e de maneira tão trágica a sanguinosa guerra, que o banditismo e o fanatismo traziam acesa por longos meses, naquele recanto do território nacional.

SOARES, H. M. A Guerra de Canudos. Rio de Janeiro: Altina, 1902.

Os relatos do último ato da Guerra de Canudos fazem uso de representações que se perpetuariam na memória construída sobre o conflito.

Nesse sentido, cada autor caracterizou a atitude dos sertanejos, respectivamente, como fruto da
A
manipulação e incompetência.
B
ignorância e solidariedade.
C
hesitação e obstinação.
D
esperança e valentia.
bravura e loucura.
Resposta correta
Gabarito oficial: alternativa E

Resolução comentada

Para resolver esta questão, precisamos analisar como um mesmo evento histórico pode ser narrado de formas completamente diferentes dependendo da visão de mundo do autor. O evento em questão é o fim da Guerra de Canudos (18961896-18971897), especificamente a resistência dos últimos defensores do arraial.

Análise do Texto I

O primeiro texto é um trecho da famosa obra Os Sertões, de Euclides da Cunha. Note as palavras que o autor escolhe para descrever a cena: ele diz que Canudos foi um "exemplo único em toda a história" e que resistiu "até o esgotamento completo". Ao destacar que havia apenas 44 defensores contra 50005000 soldados rugindo "raivosamente", Euclides da Cunha constrói uma imagem épica. Ele exalta a coragem, a resistência e o heroísmo dos sertanejos. Portanto, a atitude descrita aqui é claramente de bravura.

Análise do Texto II

O segundo texto, de Henrique Soares, descreve exatamente a mesma cena (os últimos 44 defensores), mas com lentes totalmente diferentes. Ele os chama de "fanáticos sobreviventes" e associa a guerra ao "banditismo e o fanatismo". Ao dizer que eles investiram com "enorme fúria", o autor retira qualquer traço de heroísmo da ação, tratando a resistência final como um ato irracional, insano e desmedido. Nesse contexto, o fanatismo e a fúria cega são representações de loucura.

Conclusão

A questão exige a respectiva caracterização dada por cada autor. Como vimos, Euclides da Cunha (Texto I) enxerga a resistência como um ato de extrema bravura, enquanto Henrique Soares (Texto II) a desqualifica como um ato de loucura e fanatismo.

Analisando as alternativas, a única que traz essa exata correspondência é a alternativa E.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2015 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.