Questão 118 do ENEM 2010Linguagens

ENEM 2010Linguagens1ª aplicação

Texto I
Logo depois transferiram para o trapiche o depósito dos objetos que o trabalho do dia lhes proporcionava. Estranhas coisas entraram então para o trapiche. Não mais estranhas, porém, que aqueles meninos, moleques de todas as cores e de idades as mais variadas, desde os nove aos dezesseis anos, que à noite se estendiam pelo assoalho e por debaixo da ponte e dormiam, indiferentes ao vento que circundava o casarão uivando, indiferentes à chuva que muitas vezes os lavava, mas com os olhos puxados para as luzes dos navios, com os ouvidos
presos às canções que vinham das embarcações…

AMADO, J. Capitães da Areia. São Paulo: Companhia das Letras, 2008 (fragmento).

Texto II
À margem esquerda do rio Belém, nos fundos do mercado de peixe, ergue-se o velho ingazeiro – ali os bêbados são felizes. Curitiba os considera animais sagrados, provê as suas necessidades de cachaça e pirão. No trivial contentavam-se com as sobras do mercado.

TREVISAN, D. 35 noites de paixão: contos escolhidos. Rio de Janeiro: BestBolso, 2009 (fragmento).

Sob diferentes perspectivas, os fragmentos citados são exemplos de uma abordagem literária recorrente na literatura brasileira do século XX. Em ambos os textos,
A
a linguagem afetiva aproxima os narradores dos personagens marginalizados.
B
a ironia marca o distanciamento dos narradores em relação aos personagens.
C
o detalhamento do cotidiano dos personagens revela a sua origem social.
o espaço onde vivem os personagens é uma das marcas de sua exclusão.
Resposta correta
E
a crítica à indiferença da sociedade pelos marginalizados é direta.
Gabarito oficial: alternativa D

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar os dois fragmentos literários e identificar o ponto de convergência entre eles no que diz respeito à representação de personagens marginalizados, uma temática muito comum na literatura brasileira do século XX.

No Texto I, extraído de Capitães da Areia, de Jorge Amado, o narrador descreve meninos de rua que vivem em um "trapiche" e dormem "pelo assoalho e por debaixo da ponte". Eles estão expostos às intempéries, como o vento e a chuva. Esse ambiente precário e abandonado reflete diretamente a condição de abandono social dessas crianças.

No Texto II, de Dalton Trevisan, os personagens são bêbados que habitam "à margem esquerda do rio Belém, nos fundos do mercado de peixe". Novamente, observamos a descrição de um local periférico, escondido e marginal, onde os personagens sobrevivem das "sobras do mercado".

Ao compararmos os dois trechos, percebemos que o espaço físico não é apenas um cenário de fundo, mas um elemento fundamental para a construção da narrativa. O trapiche, a ponte, a margem do rio e os fundos do mercado são espaços que ficam à margem da cidade oficial. Eles funcionam como uma metáfora e uma marca concreta da exclusão social vivida por esses personagens (meninos de rua e bêbados).

Analisando as alternativas:

  • A alternativa A é incorreta porque, embora o Texto I possa ter um tom mais empático, o Texto II utiliza uma linguagem irônica ("Curitiba os considera animais sagrados"), distanciando-se da afetividade.
  • A alternativa B é incorreta pois a ironia não é a marca do Texto I, que possui um tom mais voltado para a denúncia social e o lirismo.
  • A alternativa C é incorreta porque os textos descrevem a condição atual de vida dos personagens, e não detalham a sua origem social (de onde vieram ou como chegaram àquela situação).
  • A alternativa E é incorreta porque a crítica à indiferença da sociedade não é feita de forma direta (como em um discurso ou panfleto), mas sim de maneira literária e indireta, através da construção das cenas e dos cenários.

Portanto, a alternativa correta é a D, pois em ambos os textos o espaço onde os personagens vivem evidencia a sua condição de marginalizados e excluídos da sociedade.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2010 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.