Questão 20 do ENEM 2015Ciências Humanas

ENEM 2015Ciências Humanas2ª aplicação

TEXTO I

Não é possível passar das trevas da ignorância para a luz da ciência a não ser lendo, com um amor sempre mais vivo, as obras dos Antigos. Ladrem os cães, grunhem os porcos! Nem por isso deixarei de ser um seguidor dos Antigos. Para eles irão todos os meus cuidados e, todos os dias, a aurora me encontrará entregue ao seu estudo.

BLOIS, P. Apud PEDRERO SÁNCHEZ, M. G. História da Idade Média: texto e testemunhas. São Paulo: Unesp, 2000.

TEXTO II

A nossa geração tem arraigado o defeito de recusar admitir tudo o que parece vir dos modernos. Por isso, quando descubro uma ideia pessoal e quero torná-la pública, atribuo-a a outrem e declaro: — Foi fulano de tal que o disse, não sou eu. E para que acreditem totalmente nas minhas opiniões, digo: — O inventor foi fulano de tal, não sou eu.

BATH, A. Apud PEDRERO SÁNCHEZ, M. G. História da Idade Média: texto e testemunhas. São Paulo: Unesp, 2000.

Nos textos são apresentados pontos de vista distintos sobre as mudanças culturais ocorridas no século XII no Ocidente. Comparando os textos, os autores discutem o(a)
produção do conhecimento face à manutenção dos argumentos de autoridade da Igreja.
Resposta correta
B
caráter dinâmico do pensamento laico frente à estagnação dos estudos religiosos.
C
surgimento do pensamento científico em oposição à tradição teológica cristã.
D
desenvolvimento do racionalismo crítico ao opor fé e razão.
E
construção de um saber teológico científico.
Gabarito oficial: alternativa A

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar os dois textos, que retratam o cenário intelectual do século XII na Idade Média, período marcado por transformações culturais e pelo chamado Renascimento do Século XII.

O Texto I defende fervorosamente o estudo das obras dos "Antigos" (os pensadores clássicos da Antiguidade) como único caminho para sair da ignorância e alcançar a ciência. Essa visão reflete uma característica marcante do pensamento medieval: o peso do argumento de autoridade. Nessa época, a validade de uma ideia estava fortemente atrelada a quem a formulou, sendo os autores clássicos e os Padres da Igreja as grandes autoridades intelectuais, cujos textos eram preservados e validados pela Igreja Católica.

O Texto II apresenta uma crítica a essa mentalidade. O autor relata a dificuldade de sua geração em aceitar ideias novas ("dos modernos"). Para que suas próprias ideias sejam ouvidas e validadas, ele se vê obrigado a atribuir sua autoria a algum pensador do passado. Isso demonstra a barreira que a tradição impunha à inovação e à autoria individual.

Comparando os dois excertos, percebemos que o tema central em debate é a produção do conhecimento. Enquanto o primeiro texto exalta a tradição e a autoridade dos antigos, o segundo expõe a frustração de um pensador que tenta inovar em um ambiente intelectual engessado por essa mesma tradição.

No contexto medieval, a Igreja Católica era a principal instituição detentora e controladora do saber. A manutenção dos argumentos de autoridade servia, em grande medida, para preservar a ordem e a doutrina estabelecidas. Assim, a tensão descrita nos textos ilustra o conflito entre a tentativa de produzir novos conhecimentos e a força da manutenção dos argumentos de autoridade defendidos pela Igreja.

Analisando as alternativas:

  • A alternativa A está correta, pois sintetiza o embate entre a criação de novas ideias (produção do conhecimento) e a dependência dos pensadores clássicos (argumentos de autoridade mantidos pela Igreja).
  • A alternativa B é incorreta porque não há menção a estagnação dos estudos religiosos; ao contrário, a teologia era a principal ciência da época.
  • A alternativa C é incorreta, pois o "pensamento científico" nos moldes modernos só surgiria séculos depois, na Revolução Científica.
  • A alternativa D é incorreta, já que os textos não opõem fé e razão, mas sim o conhecimento antigo e o novo.
  • A alternativa E é incorreta, pois o foco não é a construção de um saber teológico, mas a validação do conhecimento frente à tradição.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2015 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.