Questão 43 do ENEM 2021Linguagens

ENEM 2021LinguagensPPL

TEXTO I

Os séculos de escravidão são um aspecto triste da história brasileira. Tabu e vergonha, quando se pensa nas dores e humilhações desumanas por que passaram homens e mulheres negros trazidos da África; mas também — por que não? — orgulho, quando se evocam as lutas e estratégias de resistência e sobrevivência dos escravos, ex-escravos e descendentes. Histórias transmitidas de geração em geração, como narrativas que dão sentido e identidade.

Povos remanescentes de quilombolas são grupos unidos por esse passado comum, que têm território como base da reprodução física, social, econômica e cultural de sua coletividade. São reconhecidos na Constituição de 1988 como detentores de direitos territoriais coletivos e fazem parte do conjunto dos povos e comunidades tradicionais.

LOSCHI, M. Território e tradição. Retratos: a revista do IBGE, n. 2, ago. 2017 (adaptado).

TEXTO II

exiba ao pai
nossos corações
feridos de angústia
nossas costas chicoteadas
ontem
no pelourinho da escravidão
hoje
no pelourinho da discriminação
sabes que em cada coração de negro
há um quilombo pulsando
em cada barraco
outro palmares crepita
os fogos de Xangô iluminando
nossa luta
atual e passada

NASCIMENTO, A. Axés do sangue e da esperança. Retratos: a revista do IBGE, n. 2, ago. 2017.

Na comparação entre os textos I e II, percebe-se que ambos apresentam, em relação à história dos africanos escravizados, um(a)
A
saudosismo do local de origem.
B
culpabilização do homem europeu.
valorização da memória dos antepassados.
Resposta correta
D
apelo à religiosidade das pessoas mais velhas.
E
reconhecimento dos direitos desses sujeitos.
Gabarito oficial: alternativa C

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar atentamente os dois textos apresentados e identificar o ponto de convergência entre eles no que diz respeito à história dos africanos escravizados.

O Texto I aborda a escravidão não apenas pelo viés da dor e da humilhação, mas também pelo orgulho das lutas e estratégias de resistência. O trecho fundamental para a nossa compreensão é: "Histórias transmitidas de geração em geração, como narrativas que dão sentido e identidade". Além disso, o texto define os povos quilombolas como grupos unidos por esse "passado comum". Ou seja, há uma clara exaltação da herança histórica e da memória deixada por aqueles que resistiram.

O Texto II, um poema de Abdias do Nascimento, traça um paralelo entre o sofrimento do passado ("ontem no pelourinho da escravidão") e o do presente ("hoje no pelourinho da discriminação"). Para enfrentar essa realidade, o eu lírico busca força na herança de seus antepassados, afirmando que "em cada coração de negro há um quilombo pulsando" e que "em cada barraco outro palmares crepita". A menção a Palmares e aos quilombos é um resgate direto da memória de luta dos africanos escravizados.

Comparando os dois textos, percebemos que ambos utilizam a lembrança das lutas, do sofrimento e da resistência dos que vieram antes como uma ferramenta de fortalecimento e identidade no presente.

Analisando as alternativas:

  • A) saudosismo do local de origem: Incorreta. Os textos não expressam saudade da África, mas sim focam na resistência e na construção de identidade no Brasil.
  • B) culpabilização do homem europeu: Incorreta. Embora a culpa dos escravizadores seja um fato histórico implícito, o foco central dos textos é a força, a resistência e a memória do povo negro, e não a figura do europeu.
  • C) valorização da memória dos antepassados: Correta. O Texto I fala das histórias transmitidas de geração em geração e do passado comum. O Texto II evoca a memória dos quilombos e de Palmares para inspirar a luta atual.
  • D) apelo à religiosidade das pessoas mais velhas: Incorreta. O Texto II até menciona elementos religiosos ("fogos de Xangô"), mas o Texto I não aborda esse tema.
  • E) reconhecimento dos direitos desses sujeitos: Incorreta. O Texto I menciona o reconhecimento de direitos territoriais na Constituição de 1988, mas o Texto II é um poema de denúncia e resistência, não tratando de conquistas jurídicas.

Portanto, o ponto em comum entre os textos é a exaltação e o resgate da memória daqueles que resistiram no passado.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2021 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.