Questão 32 do ENEM 2017Linguagens

ENEM 2017Linguagens2ª aplicação

TEXTO II
Ao ser questionado sobre seu processo de criação de ready-mades, Marcei Duchamp afirmou: — Isto dependia do objeto; em geral, era preciso tomar cuidado com o seu look. É muito difícil escolher um objeto porque depois de quinze dias você começa a gostar dele ou a detestá-lo. É preciso chegar a qualquer coisa com uma indiferença tal que você não tenha nenhuma emoção estética. A escolha do ready-made é sempre baseada na indiferença visual e, ao mesmo tempo, numa ausência total de bom ou mau gosto.

CABANNE, P Marcel Duchamp: engenheiro do tempo perdido.
São Paulo: Perspectiva, 1987 (adaptado).

Relacionando o texto e a imagem da obra, entende-se que o artista Marcel Duchamp, ao criar os ready-mades, inaugurou um modo de fazer arte que consiste em
A
designar ao artista de vanguarda a tarefa de ser o artífice da arte do século XX.
B
considerar a forma dos objetos como elemento essencial da obra de arte.
C
revitalizar de maneira radical o conceito clássico do belo na arte.
criticar os princípios que determinam o que é uma obra de arte.
Resposta correta
E
atribuir aos objetos industriais o status de obra de arte.
Gabarito oficial: alternativa D

Resolução comentada

A questão aborda o movimento de vanguarda conhecido como Dadaísmo e, mais especificamente, o conceito de ready-made (objeto pronto) criado pelo artista Marcel Duchamp. Para resolver a questão, precisamos compreender a intenção por trás dessa forma de expressão artística.

O Texto I é a imagem de um dos ready-mades de Duchamp: um objeto industrial comum, retirado de seu contexto e de sua função utilitária original e apresentado como obra de arte. A grande jogada não está na aparência do objeto, mas no gesto de escolhê-lo e deslocá-lo para o espaço da arte.

O Texto II traz uma declaração do próprio Duchamp sobre seu processo criativo. Ele enfatiza que a escolha dos objetos se baseava em uma "indiferença visual" e em uma "ausência total de bom ou mau gosto". Ou seja, a intenção não era selecionar algo esteticamente agradável ou belo segundo os padrões clássicos, mas adotar uma postura neutra em relação à estética do objeto.

Ao pegar objetos comuns e inseri-los em um espaço consagrado à arte (como museus e galerias), Duchamp provocou uma ruptura radical. Ele deslocou o valor da obra de arte da habilidade manual do artista (a técnica) e da estética (o belo) para o campo da ideia e do conceito. A inovação do ready-made foi forçar o público e os críticos a se perguntarem: "O que faz com que isso seja arte?".

Com base nisso, vamos analisar as alternativas:

  • A) Incorreta. O ready-made faz exatamente o oposto: retira do artista a obrigatoriedade de ser um "artífice" (aquele que domina uma técnica manual para fabricar a obra), já que ele passa a apenas "escolher" um objeto já fabricado.
  • B) Incorreta. O texto de Duchamp deixa claro que a escolha é feita com "indiferença visual"; logo, a forma estética do objeto não é o elemento central ou essencial da obra.
  • C) Incorreta. A proposta dadaísta e de Duchamp era romper com os padrões clássicos, buscando uma "ausência total de bom ou mau gosto", e não revitalizar o conceito clássico de beleza.
  • D) Correta. A atitude de Duchamp é, em sua essência, uma crítica institucional. Ao elevar um objeto comum ao status de arte apenas pela escolha do artista e pelo contexto em que é inserido, ele questiona e critica os princípios tradicionais que determinavam o que era ou não considerado arte até então.
  • E) Incorreta. Embora a consequência prática de sua ação tenha sido atribuir status de arte a objetos industriais, esse não era o objetivo final. A elevação do objeto era apenas o meio utilizado para realizar a crítica conceitual descrita na alternativa D, que representa de forma mais completa o "modo de fazer arte" inaugurado por ele.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2017 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.