Questão 66 do ENEM 2025Ciências Humanas

ENEM 2025Ciências HumanasBelém

Um ano antes da aprovação da Constituição Brasileira, em 1891, foi elaborado o Código Penal da República. Esse Código trazia à tona a posição dos médicos, diferenciando-os dos curandeiros, que passaram a ser reprimidos pela polícia, perseguidos no âmbito religioso e vistos como problema de saúde pública. Embora a Constituição assegurasse oficialmente a liberdade de culto para todas as religiões, o Código Penal permitia que as religiões negras e outras religiosidades das camadas populares fossem perseguidas.

BARROS, A. E. A. Ao ritmo de tambores e maracás: tambor de mina e pajelança no Maranhão de meados do século XX. Projeto História, maio-ago. 2019 (adaptado).

O paradoxo mencionado no texto é explicado pela
A
afirmação do estatuto laico na legislação processual.
B
refutação dos preceitos higienistas no sistema carcerário.
C
ampliação do conhecimento acadêmico no ensino jurídico.
expressão de valores preconceituosos no ordenamento legal.
Resposta correta
E
valorização dos saberes científicos na jurisprudência nacional.
Gabarito oficial: alternativa D

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar o contexto histórico do início da República no Brasil e o paradoxo apresentado no texto-base.

O texto aponta uma contradição (um paradoxo) entre duas leis fundamentais do período:

  1. A Constituição de 1891, que instituiu o Estado laico no Brasil e garantiu, oficialmente, a liberdade de culto para todas as religiões.
  2. O Código Penal de 1890, que, na prática, criminalizava práticas como o curandeirismo, a magia e a feitiçaria.

Embora a Constituição garantisse a liberdade religiosa, o Código Penal foi utilizado como um instrumento de controle social. A elite republicana da época, influenciada por teorias raciais e higienistas, via as manifestações culturais e religiosas das populações negras, indígenas e pobres como sinônimo de atraso, ignorância e até mesmo como um problema de saúde pública e de polícia.

Dessa forma, ao criminalizar o "curandeirismo", o Estado encontrou uma brecha legal para perseguir e reprimir os terreiros de candomblé, a umbanda, a pajelança e outras religiosidades populares, mesmo com a garantia constitucional de liberdade de culto.

Esse paradoxo é explicado, portanto, pela expressão de valores preconceituosos no ordenamento legal. O Código Penal refletia o racismo estrutural e o preconceito de classe da elite brasileira, que utilizava a lei para marginalizar e criminalizar a cultura das camadas populares e, em especial, da população negra recém-liberta da escravidão.

Analisando as outras alternativas:

  • A alternativa A está incorreta porque a laicidade do Estado deveria garantir a neutralidade e a liberdade, e não a perseguição.
  • A alternativa B está incorreta porque os preceitos higienistas eram, na verdade, afirmados e utilizados para justificar a repressão, e não refutados.
  • A alternativa C não tem relação direta com a perseguição religiosa mencionada.
  • A alternativa E foca apenas na valorização da ciência (medicina), mas ignora o fator central do texto: a perseguição específica às religiões negras, que se dava por racismo e preconceito, e não apenas por um debate científico.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2025 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.