Questão 43 do ENEM 2017Linguagens

ENEM 2017Linguagens2ª aplicação

Um conto de palavras que valessem mais por sua modulação que por seu significado. Um conto abstrato e concreto como uma composição tocada por um grupo instrumental; límpido e obscuro, espiral azul num campo de narcisos defronte a uma torre a descortinar um lago assombrado em que o atirar uma pedra espraia a água em lentos círculos sob os quais nada um peixe turvo que é visto por ninguém e no entanto existe como algas do oceano. Um conto-rastro de uma lesma também evento do universo qual a luz de um quasar a bilhões de anos-luz; um conto em que os vocábulos são como notas indeterminadas numa pauta; que é como bater suave e espaçado de um sino propagando-se nos corredores de um mosteiro […]. Um conto noturno com a fulguração de um sonho que, quanto mais se quer, mais se perde; é preciso resistir à tentação das proparoxítonas e do sentido, a vida é uma peça pregada cujo maior mistério é o nada.

SANT’ANNA, S. Um conto abstrato. In: O voo da madrugada. São Paulo: Cia. das Letras, 2003.

Utilizando o recurso da metalinguagem, o narrador busca definir o gênero conto pelo procedimento estético que estabelece uma
A
confluência de cores, destacando a importância do espaço.
B
composição de sons, valorizando a construção musical do texto.
C
percepção de sombras, endossando o caráter obscuro da escrita.
cadeia de imagens, enfatizando a ideia de sobreposição de sentidos.
Resposta correta
E
hierarquia de palavras, fortalecendo o valor unívoco dos significados.
Gabarito oficial: alternativa D

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar como o narrador utiliza a metalinguagem — isto é, a linguagem falando sobre si mesma — para definir o que seria um "conto".

Logo no início, o narrador propõe um conto em que as palavras valham mais pela sua "modulação" (sonoridade, ritmo) do que pelo seu "significado" estrito. A partir daí, ele não nos dá uma definição de dicionário, mas sim uma definição poética, construída por meio de uma sucessão de metáforas e comparações.

Observe o trecho: "espiral azul num campo de narcisos defronte a uma torre a descortinar um lago assombrado em que o atirar uma pedra espraia a água em lentos círculos sob os quais nada um peixe turvo".

Nessa passagem, temos uma clara cadeia de imagens. Uma imagem puxa a outra de forma contínua: a espiral leva ao campo, que leva à torre, que revela o lago, onde cai a pedra, que forma círculos, sob os quais está o peixe. É uma sequência visual e dinâmica que se desdobra na mente do leitor.

Além disso, o texto promove uma constante sobreposição de sentidos. Isso ocorre de duas formas:

  1. Sentidos sensoriais (sinestesia): O narrador mistura estímulos visuais (espiral azul, luz de um quasar), auditivos (composição instrumental, bater de um sino) e espaciais.
  2. Sentidos semânticos (significados): Ele une opostos como "abstrato e concreto" e "límpido e obscuro". Ao afirmar que é preciso "resistir à tentação [...] do sentido", o autor deixa claro que não busca um significado único e fechado (o que invalida a alternativa E), mas sim uma multiplicidade de interpretações, uma sobreposição de ideias que torna o conto uma experiência estética complexa.

Analisando as outras alternativas:

  • A e C são muito restritivas. O texto cita cores e obscuridade, mas o procedimento estético vai muito além disso.
  • B é tentadora, pois o texto fala bastante de música e som. Porém, a construção do texto não se limita aos sons; as imagens visuais e cósmicas (como o rastro da lesma e a luz do quasar) são fundamentais para a definição proposta.

Portanto, a alternativa que melhor engloba o procedimento estético utilizado pelo narrador é a que aponta para a construção de uma cadeia de imagens e a sobreposição de sentidos.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2017 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.