Questão 32 do ENEM 2021Linguagens

ENEM 2021LinguagensPPL

Uma coisa ninguém discute: se Zacarias morreu, o seu corpo não foi enterrado. A única pessoa que poderia dar informações certas sobre o assunto sou eu. Porém estou impedido de fazê-lo porque os meus companheiros fogem de mim, tão logo me avistam pela frente. Quando apanhados de surpresa, ficam estarrecidos e não conseguem articular uma palavra. Em verdade morri, o que vem ao encontro da versão dos que creem na minha morte. Por outro lado, também não estou morto, pois faço tudo o que antes fazia e, devo dizer, com mais agrado do que anteriormente.

RUBIÃO, M. O pirotécnico Zacarias. São Paulo: Ática, 1974.

Murilo Rubião é um expoente da narrativa fantástica na literatura brasileira. No fragmento, a singularidade do modo como o autor explora o absurdo manifesta-se no(a)

No fragmento, a singularidade do modo como o autor explora o absurdo manifesta-se no(a)
expressão direta e natural de uma situação insólita.
Resposta correta
B
relato denso e introspectivo sobre a experiência da morte.
C
efeito paradoxal da irregularidade na organização temporal.
D
discrepância entre a falta de emotividade e o evento angustiante.
E
alternância entre os pontos de vista do narrador e do personagem.
Gabarito oficial: alternativa A

Resolução comentada

A questão aborda a obra de Murilo Rubião, um dos maiores representantes da literatura fantástica e do realismo mágico no Brasil. Para resolvermos, precisamos analisar como o autor constrói o absurdo no fragmento apresentado.

Ao lermos o texto, notamos que o narrador-personagem relata uma situação completamente impossível e contraditória: ele afirma categoricamente que morreu («Em verdade morri»), mas, logo em seguida, diz que não está morto, pois continua fazendo tudo o que fazia antes, e até com mais prazer. Além disso, ele conta que seus amigos fogem dele aterrorizados.

O ponto central aqui é a forma como ele narra tudo isso. Não há desespero, não há grandes reflexões filosóficas ou tom de terror. O narrador expõe o fato de estar morto (e vivo ao mesmo tempo) com uma tranquilidade assustadora, como se estivesse contando um acontecimento banal do dia a dia. Essa é a principal marca da literatura fantástica de Murilo Rubião: a naturalização do absurdo.

Analisando as alternativas:

  • A) expressão direta e natural de uma situação insólita. Correta. O insólito (o absurdo de estar morto e continuar vivendo) é narrado de maneira direta, simples e natural, sem causar espanto ao próprio narrador.
  • B) relato denso e introspectivo sobre a experiência da morte. Incorreta. O relato não é denso nem focado em uma introspecção psicológica profunda; é, na verdade, bastante prático e descritivo sobre o que acontece ao seu redor.
  • C) efeito paradoxal da irregularidade na organização temporal. Incorreta. O paradoxo existe (estar morto e vivo), mas não se deve a uma desorganização do tempo na narrativa.
  • D) discrepância entre a falta de emotividade e o evento angustiante. Incorreta. Embora o narrador não demonstre emoção típica de quem morreu, ele próprio afirma que faz as coisas «com mais agrado do que anteriormente», o que tira o caráter angustiante do evento para ele.
  • E) alternância entre os pontos de vista do narrador e do personagem. Incorreta. O texto é narrado em primeira pessoa, sendo o narrador o próprio personagem principal (Zacarias), sem alternância de foco narrativo.

Portanto, a singularidade do texto manifesta-se na forma natural com que o insólito é tratado.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2021 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.