Questão 27 do ENEM 2014Ciências Humanas

ENEM 2014Ciências Humanas3ª aplicação

Uma vez que a razão me persuade de que devo impedir-me de dar crédito às coisas que não são inteiramente certas e indubitáveis tanto quanto àquelas que nos parecem manifestamente ser falsas, o menor motivo de dúvida que eu nelas encontrar bastará para me levar a rejeitar todas.

DESCARTES, R. Meditações de Filosofia Primeira. São Paulo: Abril Cultural, 1973 (adaptado).

Ao introduzir a dúvida como método, Descartes busca alcançar uma certeza capaz de re-fundar, sobre princípios sólidos, a ciência e a filosofia. Seu procedimento teórico indica
A
a capacidade de o entendimento humano duvidar das certezas claras e distintas.
B
a ideia de que o ceticismo é base suficiente para edificar a filosofia moderna.
o rompimento com o dogmatismo da filosofia aristotélico-tomista que prevalecera na Idade Média.
Resposta correta
D
a primazia dos sentidos como caminho seguro de condução do homem à verdade.
E
o estabelecimento de uma regra capaz de consolidar a tradição escolástica de pensamento.
Gabarito oficial: alternativa C

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos compreender o papel da dúvida metódica no pensamento de René Descartes e o contexto histórico em que ele estava inserido.

Descartes é considerado o pai da filosofia moderna. Em sua época, o conhecimento era fortemente dominado pela tradição escolástica (a filosofia aristotélico-tomista), que baseava muitas de suas certezas no princípio de autoridade, na fé e na tradição medieval. Descartes percebeu que muitos dos conhecimentos que havia aprendido desde a juventude eram duvidosos ou falsos. Para construir um conhecimento seguro e inabalável (uma ciência verdadeira), ele propôs um método radical: a dúvida metódica e hiperbólica.

Esse método consiste em rejeitar como falso tudo aquilo que possa deixar a menor margem para dúvida. O objetivo de Descartes não era ser um cético para sempre, mas usar a dúvida como uma ferramenta para encontrar uma verdade tão evidente que nem o mais extravagante dos céticos pudesse duvidar (o famoso "Penso, logo existo").

Vamos analisar as alternativas com base nisso:

  • A alternativa A está incorreta, pois as ideias "claras e distintas" são justamente o critério de verdade para Descartes. Ele não duvida delas; pelo contrário, é a elas que ele quer chegar.
  • A alternativa B está incorreta, porque o ceticismo em Descartes é apenas um meio (metódico e provisório), e não a base ou o fim da sua filosofia.
  • A alternativa C está correta. Ao instituir a dúvida metódica e exigir que o conhecimento seja fundamentado na razão (e não na autoridade ou na tradição), Descartes rompe com o dogmatismo da filosofia aristotélico-tomista (escolástica) que dominou a Idade Média.
  • A alternativa D está incorreta, pois Descartes é um racionalista. Ele argumenta que os sentidos nos enganam frequentemente e, portanto, não podem ser o caminho seguro para a verdade.
  • A alternativa E está incorreta, pois, como vimos, ele não quer consolidar a tradição escolástica, mas sim superá-la e fundar uma nova forma de fazer ciência e filosofia.

Portanto, o procedimento teórico de Descartes indica um claro rompimento com a tradição medieval.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2014 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.