Questão 123 do ENEM 2015Linguagens

ENEM 2015Linguagens2ª aplicação

Vei, a Sol

Ora o pássaro careceu de fazer necessidade, fez e o herói ficou escorrendo sujeira de urubu. Já era de madrugadinha e o tempo estava inteiramente frio. Macunaíma acordou tremendo, todo lambuzado. Assim mesmo examinou bem a pedra mirim da ilhota para vê si não havia alguma cova com dinheiro enterrado. Não havia não. Nem a correntinha encantada de prata que indica pro escolhido, tesouro de holandês. Havia só as formigas jaquitaguas ruivinhas.
Então passou Caiuanogue, a estrela da manhã. Macunaíma já meio enjoado de tanto viver pediu pra ela que o carregasse pro céu.
Caiuanogue foi se chegando porém o herói fedia muito. —Vá tomar banho! — ela fez. E foi-se embora. Assim nasceu a expressão “Vá tomar banho” que os brasileiros empregam se referindo a certos imigrantes europeus.

ANDRADE, M. Macunaíma: o herói sem nenhum caráter. Rio de Janeiro: Agir, 2008.

O fragmento de texto faz parte do capítulo VII, intitulado “Vei, a Sol”, do livro Macunaíma, de Mário de Andrade, pertencente à primeira fase do Modernismo brasileiro. Considerando a linguagem empregada pelo narrador, é possível identificar
A
resquícios do discurso naturalista usado pelos escritores do século XIX.
B
ausência de linearidade no tratamento do tempo, recurso comum ao texto narrativo da primeira fase modernista.
C
referência à fauna como meio de denunciar o primitivismo e o atraso de algumas regiões do país.
D
descrição preconceituosa dos tipos populares brasileiros, representados por Macunaíma e Caiuanogue.
uso da linguagem coloquial e de temáticas do lendário brasileiro como meio de valorização da cultura popular nacional.
Resposta correta
Gabarito oficial: alternativa E

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos relembrar as principais características da primeira fase do Modernismo brasileiro, inaugurada com a Semana de Arte Moderna de 1922, e como elas se aplicam à obra Macunaíma, de Mário de Andrade.

O projeto literário da primeira geração modernista tinha como um de seus pilares a busca por uma identidade nacional autêntica. Para isso, os autores romperam com as regras rígidas e o vocabulário erudito do passado (como o Parnasianismo) e passaram a valorizar a linguagem coloquial, ou seja, a forma como o brasileiro realmente fala no dia a dia. Além disso, mergulharam nas raízes da nossa cultura, resgatando o folclore, as lendas indígenas e os mitos populares.

Ao lermos o fragmento da questão, notamos claramente essas características:

  1. Linguagem coloquial: O narrador utiliza expressões informais e desvios da norma-padrão que imitam a oralidade, como em "pra vê si não havia", "o herói fedia muito" e a própria expressão que dá origem à lenda contada, "Vá tomar banho!".
  2. Temática do lendário brasileiro: O texto está repleto de elementos mágicos e folclóricos, como a busca por "tesouro de holandês" e a personificação da estrela da manhã, "Caiuanogue", com quem o herói interage.

Essa mistura de oralidade e mitologia não é feita para ridicularizar ou demonstrar preconceito, mas sim com o objetivo de valorizar a cultura popular nacional, elevando o folclore e a fala do povo ao status de literatura. Mário de Andrade constrói, assim, um retrato do Brasil profundo.

Analisando as alternativas:

  • A alternativa A está incorreta porque o Modernismo rompe com as estéticas do século XIX, como o Naturalismo.
  • A alternativa B fala sobre o tempo, mas o comando da questão pede foco na linguagem empregada pelo narrador.
  • As alternativas C e D estão incorretas porque a intenção do autor não é denunciar atraso ou ser preconceituoso, mas sim exaltar e integrar esses elementos à identidade brasileira.
  • A alternativa E descreve perfeitamente o que observamos no texto: a união da linguagem coloquial com o folclore para valorizar a nossa cultura.

Portanto, a alternativa correta é a que reconhece esse projeto estético e cultural de Mário de Andrade.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2015 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.