Questão 13 do ENEM 2024Linguagens

ENEM 2024LinguagensPPL

Venha ver o pôr do sol

O mato rasteiro dominava tudo. E não satisfeito de ter-se alastrado furioso pelos canteiros, subira pelas sepulturas, infiltrara-se ávido pelos rachões dos mármores, invadira as alamedas de pedregulhos esverdinhados, como se quisesse com sua violenta força de vida cobrir para sempre os últimos vestígios da morte. Foram andando pela longa alameda banhada de sol. Os passos de ambos ressoavam sonoros como uma estranha música feita do som das folhas secas trituradas sobre os pedregulhos. Amuada, mas obediente, ela se deixava conduzir como uma criança. Às vezes mostrava certa curiosidade por uma ou outra sepultura com os pálidos medalhões de retratos esmaltados.

TELLES, L. F. Antes do baile verde. São Paulo: Cia. das Letras, 2009.

Nesse trecho, os procedimentos de construção que promovem a expressividade decorrem da
A
presença de comparações com a natureza.
B
mudança gradativa de reação das personagens.
descrição impressionista do ambiente do cemitério.
Resposta correta
D
reflexão sobre a fragilidade humana diante da finitude.
E
visão bucólica do narrador sobre o espaço contemplado.
Gabarito oficial: alternativa C

Resolução comentada

Para resolver essa questão, precisamos analisar o trecho do conto Venha ver o pôr do sol, de Lygia Fagundes Telles, e identificar qual recurso estilístico o narrador utiliza para dar expressividade e força ao texto.

Logo no início, notamos que o narrador constrói a imagem do cemitério de forma muito sensorial e subjetiva. Ele não faz um mero relato objetivo do espaço, mas sim uma descrição impressionista. Esse tipo de descrição caracteriza-se por captar as impressões, sensações e emoções que o ambiente transmite ao observador.

Podemos perceber isso por meio de dois recursos principais:

  1. Personificação e subjetividade: O mato é descrito com características humanas e emocionais, como se tivesse vontade própria. Ele se alastra "furioso", infiltra-se "ávido" e possui uma "violenta força de vida" para cobrir os vestígios da morte.
  2. Apelo sensorial: O texto é rico em imagens visuais e auditivas. Temos a visão dos "pedregulhos esverdinhados", da "longa alameda banhada de sol" e dos "pálidos medalhões de retratos esmaltados". Na audição, os passos "ressoavam sonoros como uma estranha música feita do som das folhas secas trituradas".

Agora, vamos analisar por que as outras alternativas estão incorretas:

  • A) presença de comparações com a natureza: Embora existam comparações no texto ("como uma estranha música", "como uma criança"), elas não são comparações com a natureza que justifiquem a expressividade central do trecho.
  • B) mudança gradativa de reação das personagens: No trecho apresentado, a personagem feminina mantém-se "amuada, mas obediente", não havendo uma mudança gradativa de comportamento.
  • D) reflexão sobre a fragilidade humana diante da finitude: O foco do fragmento não é uma reflexão filosófica sobre a fragilidade humana, mas sim a descrição da força da natureza (a vida) sobrepondo-se ao abandono do cemitério (a morte).
  • E) visão bucólica do narrador sobre o espaço contemplado: O termo "bucólico" remete a um ambiente pastoril, tranquilo e idílico. O cemitério descrito, tomado por um mato "furioso" e "ávido", passa longe de ser um cenário bucólico; é, na verdade, um ambiente tenso e decadente.

Portanto, a expressividade do texto decorre da forma como o narrador descreve o ambiente do cemitério, focando nas impressões sensoriais e na atmosfera do lugar.

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Fonte: prova oficial do ENEM 2024 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.