VERÍSSIMO, L. F. As cobras em: Se Deus existe que eu seja atingido por um raio. Porto Alegre: L&PM, 1997.
Questão 129 do ENEM 2011 — Linguagens
Resolução comentada
A tira de Luis Fernando Veríssimo constrói o humor por uma quebra de expectativa: no meio de um ataque empolgado, uma das cobras interrompe a ação para propor uma correção gramatical — "vamos acertar o pronome".
Para entender a correção, precisamos relembrar as funções sintáticas dos pronomes pessoais na norma-padrão. Eles se dividem em dois casos:
- Pronomes do caso reto (eu, tu, ele/ela, nós, vós, eles/elas): na norma-padrão, exercem a função de sujeito, indicando quem pratica a ação.
- Pronomes do caso oblíquo (me, te, o, a, lhe, nos, vos, os, as, lhes, -lo, -la, -los, etc.): exercem a função de complemento verbal (objeto direto ou indireto), indicando quem recebe a ação.
O comando da questão descreve exatamente o contraste que gera o humor. Em um primeiro momento, aparece uma construção em que o alvo da ação é representado por um pronome oblíquo ligado ao verbo (a forma "-los", empregada corretamente como objeto direto). Em seguida, aparece a construção que motiva a piada: o alvo da ação passa a ser marcado pelo pronome reto "eles".
O problema, segundo a norma-padrão, é que "eles" é pronome do caso reto e, por isso, deveria funcionar apenas como sujeito. Ao colocá-lo na posição de objeto direto (quem será atingido pela ação), rompe-se a distribuição esperada: um pronome de sujeito passa a ocupar o lugar de um pronome de objeto. Pela norma culta, a forma adequada seria a variante oblíqua ("-los").
Portanto, o uso do pronome reto no lugar do oblíquo é inadequado porque contraria a marcação das funções sintáticas de sujeito e objeto, misturando o papel que cada tipo de pronome deve desempenhar.
Analisando as demais alternativas:
- A está incorreta porque a construção com pronome reto como objeto é, na verdade, muito comum e típica do registro oral e coloquial do português brasileiro — não é o registro oral que a norma contraria.
- C está incorreta, pois não há erro de concordância verbal: o verbo aparece no infinitivo dentro de uma locução ("vamos" + infinitivo), sem desacordo com o sujeito.
- D está incorreta porque a frase é perfeitamente compreensível, sem qualquer duplo sentido.
- E está incorreta porque o pronome atua como objeto, e não como um segundo sujeito da oração.
A alternativa correta é a B.
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Fonte: prova oficial do ENEM 2011 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.