Xilogravura, 1869. O indígena, representando o Império, coroa com louros o monarca.
Questão 50 do ENEM 2016 — Ciências Humanas
Resolução comentada
A questão aborda o processo de construção da identidade nacional brasileira durante o Segundo Reinado, um projeto político e cultural patrocinado pelo próprio Estado imperial.
Ao analisarmos o texto e a imagem, percebemos um esforço deliberado para associar a figura do imperador D. Pedro II a elementos nativos e tropicais. Ele é coroado por um indígena, veste um manto cujas cores dinásticas (verde e amarelo) são reinterpretadas como as cores da natureza do "Novo Mundo", usa um colar de penas de tucano e está cercado por flora local, como ramos de café, tabaco e coqueiros.
Historicamente, esse movimento está atrelado ao Romantismo brasileiro, especificamente à sua vertente indianista. Após a Independência, o Brasil precisava criar uma identidade própria que o diferenciasse de sua antiga metrópole, Portugal. Para isso, a elite intelectual e política (muitas vezes reunida em torno do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro - IHGB) escolheu a natureza exuberante e a figura idealizada do indígena como os verdadeiros símbolos da nação.
Ao "tropicalizar" o monarca, associando-o a esses símbolos nativos, a monarquia buscava legitimar-se como uma instituição autenticamente brasileira. Essa estratégia visual e ideológica tinha como principal objetivo obscurecer a origem portuguesa e colonizadora da família real (os Bragança e Habsburgo) e da própria elite imperial. Ao se apresentar como um "monarca nos trópicos", D. Pedro II afastava a imagem de um governante estrangeiro e europeu, consolidando-se como o líder natural e inquestionável da nova nação.
Analisando as outras alternativas para fins de eliminação:
- A alternativa A está incorreta, pois a imagem busca criar uma identificação nacional, e não exaltar o absolutismo (o Brasil era uma monarquia constitucional).
- A alternativa B está incorreta, pois o projeto nacional do Romantismo excluiu a matriz africana, focando apenas na idealização do indígena.
- A alternativa C está incorreta, pois, embora a participação popular fosse de fato restrita, o simbolismo da imagem não tem o objetivo de comunicar ou justificar essa restrição, mas sim de forjar uma identidade.
- A alternativa D está incorreta, pois o sentimento antilusitano foi mais forte no Primeiro Reinado e no Período Regencial; no Segundo Reinado, o foco era mais a afirmação de uma identidade própria do que o ataque direto a Portugal.
Portanto, a alternativa correta é a E.
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Fonte: prova oficial do ENEM 2016 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.