ZIRALDO. 20 anos de prontidão. In: LEMOS, R. (Org.). Uma história do Brasil através da caricatura (1840-2001). Rio de Janeiro: Letras & Expressões, 2001.
Questão 19 do ENEM 2015 — Ciências Humanas
Resolução comentada
A questão pede que se identifique a estratégia econômica do Regime Militar (1964-1985) criticada na charge de Ziraldo.
A mensagem da charge
A cena mostra uma família à mesa. A mulher lê uma notícia: "Só este ano já entraram no país três bilhões de dólares. O pagamento começa a ser feito daqui a dez anos." O homem, ao ouvir isso e olhar para o filho pequeno ao seu lado, exclama: "Tadinho!".
A ironia é direta: o dinheiro (os dólares) entra agora, mas a conta só será paga no futuro — e quem herdará essa dívida é a criança, que representa a próxima geração. A charge, portanto, critica o endividamento externo: recursos captados hoje que se transformam em obrigação futura.
O contexto histórico e econômico
Durante o Regime Militar, sobretudo no chamado "Milagre Econômico" (1968-1973), o Brasil registrou forte crescimento do PIB. Para sustentar esse ritmo e financiar grandes obras de infraestrutura (Transamazônica, Ponte Rio-Niterói, Itaipu), o governo recorreu à captação de financiamentos estrangeiros, ou seja, empréstimos junto a bancos internacionais.
O cenário externo favorecia isso: havia muita liquidez no mercado internacional e juros baixos. A aposta era de que o próprio crescimento geraria riqueza suficiente para pagar a dívida no futuro. Com as Crises do Petróleo (1973 e 1979), porém, os juros internacionais dispararam, e a dívida virou uma bola de neve, levando à grave crise dos anos 1980 (a "década perdida"), de inflação alta e estagnação. É exatamente o desfecho antecipado pela charge.
Análise das alternativas
- A) priorização da segurança nacional: A Doutrina de Segurança Nacional era o pilar político-repressivo do regime, mas a charge trata de economia e endividamento, não de segurança.
- B) captação de financiamentos estrangeiros: Correta. A entrada de dólares com pagamento adiado descreve exatamente a tomada de empréstimos no exterior (aumento da dívida externa).
- C) execução de cortes nos gastos públicos: Incorreta. O governo ampliou os gastos com grandes obras e investimentos estatais, o oposto de austeridade.
- D) nacionalização de empresas multinacionais: Incorreta. O regime incentivou a entrada de capital e de empresas estrangeiras, não a estatização delas.
- E) promoção de políticas de distribuição de renda: Incorreta. A política econômica concentrou renda; a justificativa oficial ("fazer o bolo crescer para depois dividir") não se traduziu em distribuição.
Portanto, a charge critica o endividamento externo promovido para financiar o crescimento, o que confirma a alternativa B.
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Fonte: prova oficial do ENEM 2015 (INEP). Resolução comentada pela equipe do Alvo ENEM.