Tema de redação

Redação sobre violência contra a mulher: repertório, tese e proposta de intervenção

A redação sobre violência contra a mulher — tema oficial do ENEM 2015 — se sustenta em três pilares: o avanço legal (Lei Maria da Penha, Lei do Feminicídio), os dados que mostram a persistência do problema (Fórum Brasileiro de Segurança Pública) e a raiz cultural machista que a legislação sozinha não alcança.

Por que violência contra a mulher pode cair na redação do ENEM

O Brasil convive com números de violência de gênero que envergonham: são mais de mil feminicídios por ano, além de milhões de casos de agressão física, psicológica e assédio. Na maioria dos feminicídios, o autor é parceiro ou ex-parceiro da vítima, e o crime ocorre dentro de casa — o lugar que deveria ser o mais seguro.

No plano legal, o país avançou de forma notável. A Lei Maria da Penha (2006) criou um sistema de proteção reconhecido pela ONU como referência; a Lei do Feminicídio (2015) deu nome ao assassinato de mulheres por razões de gênero; e em 2024 o feminicídio virou crime autônomo com pena de até 40 anos. O paradoxo é que a violência persiste em níveis altos — sinal de que o problema não se resolve apenas no Código Penal.

O ENEM cobrou exatamente essa persistência em 2015 e voltou ao universo feminino em 2023, com o trabalho de cuidado. A banca valoriza quem entende a violência como fenômeno estrutural — alimentado por machismo, dependência econômica e falhas na rede de proteção — e não como sucessão de casos isolados.

Repertório sociocultural sobre violência contra a mulher

Todo item abaixo é real e verificável — leis com número e ano, obras com autor, dados com instituição. Escolha 2 ou 3 que você consiga explicar, não os 7 de uma vez: repertório citado sem análise não pontua na competência 2.

Lei Maria da Penha — Lei 11.340/2006

Lei

Criou mecanismos para coibir a violência doméstica: medidas protetivas de urgência, delegacias especializadas e juizados próprios. Leva o nome de Maria da Penha Maia Fernandes, que ficou paraplégica após tentativas de assassinato pelo marido e lutou 19 anos por justiça.

Lei do Feminicídio — Lei 13.104/2015

Lei

Tornou o feminicídio — homicídio de mulher por razões da condição de sexo feminino — circunstância qualificadora e crime hediondo. Nomear o fenômeno permitiu medi-lo: sem o tipo penal, esses crimes se diluíam nas estatísticas gerais.

Lei 14.994/2024

Lei

Transformou o feminicídio em crime autônomo, com pena de 20 a 40 anos — a mais alta do Código Penal. Repertório recente que evidencia o endurecimento progressivo da resposta penal e sustenta a pergunta-chave: por que a violência persiste mesmo assim?

Anuário Brasileiro de Segurança Pública (FBSP)

Dado

Levantamento anual do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. As edições recentes registram mais de 1.400 feminicídios por ano no país — cerca de 4 mulheres mortas por dia pela condição de ser mulher, na maioria por parceiros ou ex-parceiros.

"O Segundo Sexo" — Simone de Beauvoir (1949)

Obra

Obra fundadora do feminismo moderno, com a tese de que "não se nasce mulher: torna-se mulher" — o papel feminino é construção social. Base filosófica para argumentar que a violência de gênero nasce de uma cultura que hierarquiza os sexos.

"Maria da Vila Matilde" — Elza Soares (2015)

Obra

Canção do álbum "A Mulher do Fim do Mundo" em que a personagem enfrenta o agressor: "cadê meu celular? Eu vou ligar pro 180". Repertório cultural brasileiro que ainda divulga o canal oficial de denúncia, a Central de Atendimento à Mulher.

Convenção de Belém do Pará (1994)

Fato histórico

Tratado interamericano para prevenir, punir e erradicar a violência contra a mulher, ratificado pelo Brasil. Foi com base nele que a Comissão Interamericana de Direitos Humanos responsabilizou o Estado brasileiro no caso Maria da Penha, forçando a criação da lei.

Tese e argumentos para a redação sobre violência contra a mulher

A tese é o ponto de vista que sua redação inteira defende — ela aparece na introdução e organiza os desenvolvimentos. Um exemplo de tese defensável para este tema:

Exemplo de tese

A persistência da violência contra a mulher no Brasil revela que o avanço das leis não foi acompanhado nem pela transformação da cultura machista que a produz, nem pela estruturação da rede que deveria proteger a vítima antes do crime fatal.

Cada argumento abaixo pode virar um parágrafo de desenvolvimento. Note a anatomia: afirmação clara, repertório explicado e análise que devolve ao problema — use-a como molde para os seus próprios parágrafos:

Argumento 1: A lei avançou; a cultura que produz a violência, não

Da Lei Maria da Penha (2006) à Lei 14.994/2024, que elevou a pena do feminicídio a até 40 anos, a resposta penal brasileira endureceu de forma contínua. Ainda assim, o Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública segue registrando mais de 1.400 feminicídios por ano. A explicação está antes do crime: como formulou Simone de Beauvoir em "O Segundo Sexo", os papéis de gênero são construídos — e a cultura que ensina o homem a tratar a mulher como posse continua sendo transmitida. Direito penal atua depois do fato; a violência se aprende, e se desaprende, muito antes.

Argumento 2: A rede de proteção falha antes do desfecho fatal

O feminicídio raramente é o primeiro ato: costuma ser o fim de uma escalada de ameaças, agressões e controle, muitas vezes já conhecida do Estado. Entre a denúncia e a proteção real, porém, há lacunas — medidas protetivas sem fiscalização efetiva, poucas casas-abrigo, delegacias especializadas concentradas nas capitais e dependência econômica que prende a vítima ao agressor. A canção "Maria da Vila Matilde", de Elza Soares, mostra o gesto que a política pública precisa garantir: que ligar para o 180 resulte em proteção concreta. Quando a rede falha, a lei mais dura do Código Penal chega apenas a tempo do velório.

Proposta de intervenção modelo sobre violência contra a mulher

A proposta nota 200 tem 5 elementos: agente, ação, meio, finalidade e detalhamento. Veja o modelo para este tema com cada elemento identificado — na sua redação, esses elementos aparecem redigidos em texto corrido na conclusão:

Agente
Ministério da Justiça e Segurança Pública, em parceria com os governos estaduais e o Poder Judiciário
Ação
fortalecer a rede de proteção prevista na Lei Maria da Penha, com foco na fase anterior ao crime letal
Meio
por meio da interiorização das delegacias da mulher com atendimento 24 horas, do monitoramento eletrônico do cumprimento de medidas protetivas e da ampliação de casas-abrigo e de programas de autonomia financeira para vítimas
Finalidade
para interromper a escalada da violência doméstica antes que se converta em feminicídio
Detalhamento
Como detalhamento, a política deve incluir educação para a igualdade de gênero nas escolas e campanhas permanentes de divulgação do Ligue 180 — atacando também a raiz cultural do problema, e não apenas suas consequências penais.

Esse tema já caiu na redação do ENEM?

ENEM 2015

A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira

ENEM 2023

Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil

Tema vizinho: desigualdade de gênero pelo ângulo do trabalho não remunerado.

Tema que já caiu não volta com o mesmo enunciado — mas o eixo continua vivo, e o repertório desta página serve para qualquer recorte novo dentro dele. Confira a lista completa de temas oficiais por ano no guia de redação.

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