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Humanismo na Literatura: Resumo, Características e Gil Vicente no ENEM

Ilustração do Homem Vitruviano de Leonardo da Vinci, representando o antropocentrismo, com fundo de textos e elementos da transição medieval para o renascimento.
Fonte: Época Negócios - Globo

O Humanismo não é apenas uma escola literária, mas um profundo movimento intelectual e artístico que abalou as estruturas da Europa no século XV. Representando a ponte exata entre a escuridão mística da Idade Média (Trovadorismo) e a luz racional do Renascimento (Classicismo), este período é marcado pela descoberta de que o ser humano, com sua razão e emoção, poderia ser o centro do universo. No ENEM, compreender essa transição e, principalmente, a genialidade crítica do teatro de Gil Vicente, é garantia de pontos na prova de Linguagens.

Sumário

  1. O que é o Humanismo? (Contexto Histórico)
    1. O Fim do Feudalismo e a Ascensão da Burguesia
    2. Teocentrismo vs. Antropocentrismo
  2. O Humanismo em Portugal
  3. As Três Vertentes Literárias do Humanismo
    1. A Prosa Historiográfica: Fernão Lopes
    2. A Poesia Palaciana: Garcia de Resende
    3. O Teatro Vicentino: Gil Vicente
  4. Mnemônicos e Dicas
  5. Como Cai no ENEM
  6. Principais Dúvidas
  7. Resumo Completo
  8. Referências

O que é o Humanismo? (Contexto Histórico)

O Humanismo abrange a produção literária, filosófica e artística que ocorreu na Europa durante o período de transição entre a Baixa Idade Média e o Renascimento, mais especificamente ao longo do século XV.

Para entender a literatura humanista, é vital compreender o choque cultural que estava acontecendo. O mundo estava deixando de ser um lugar de conformismo religioso para se tornar um espaço de descobertas científicas e expansão territorial.

O Fim do Feudalismo e a Ascensão da Burguesia

Durante séculos, a Europa viveu sob o sistema feudal: riqueza era sinônimo de terra, e a sociedade era estática (quem nascia servo, morria servo). No entanto, no século XV, a dinâmica muda radicalmente:

  • Surgimento dos Burgos: Cidades fortificadas começam a se desenvolver ao redor de rotas comerciais.
  • A Burguesia: Ex-camponeses e artesãos começam a acumular capital através do comércio, criando uma nova classe social que não dependia de títulos de nobreza, mas sim do dinheiro.
  • As Grandes Navegações: A busca por novas rotas comerciais impulsiona a invenção de tecnologias (como a bússola e o astrolábio) e muda a visão geográfica do mundo.
  • A Invenção da Imprensa: A prensa de Gutenberg (c. 1450) revoluciona a forma como o conhecimento é transmitido, tirando o monopólio da escrita das mãos da Igreja Católica.
Ilustração de um burgo medieval em transição, mostrando o comércio e o surgimento da burguesia.
Fonte: História do Mundo
*[Imagem: Ilustração de um burgo medieval em transição, mostrando o comércio e o surgimento da burguesia.]*

Teocentrismo vs. Antropocentrismo

A maior revolução do Humanismo foi ideológica. O pensamento europeu deslocou-se do Teocentrismo (Deus no centro de tudo) para o Antropocentrismo (o homem como medida de todas as coisas).

CaracterísticaVisão Medieval (Trovadorismo)Visão Humanista e Renascentista
Centro do UniversoDeus (Teocentrismo)O Ser Humano (Antropocentrismo)
Explicação da VidaFé, misticismo e dogmas religiososRazão, ciência e observação da natureza
Foco de InteresseA vida após a morte (espiritualidade)Os valores terrenos e a felicidade imediata
O HomemSer pecador, submisso e frágilSer racional, capaz de criar e transformar
Referências CulturaisTradição cristãResgate da Antiguidade Clássica (Grécia/Roma)

Importante: O antropocentrismo não significa ateísmo. O homem humanista continuava sendo cristão, mas passou a valorizar suas próprias capacidades intelectuais e artísticas como dons divinos que deveriam ser explorados, e não reprimidos.


O Humanismo em Portugal

Em Portugal, o Humanismo literário possui um marco temporal muito bem definido: começa no ano de 1434, quando Fernão Lopes é nomeado Cronista-mor da Torre do Tombo (o arquivo oficial do reino) pelo rei D. Duarte. O período se encerra em 1527, quando o poeta Francisco de Sá de Miranda retorna da Itália trazendo a Medida Nova (versos decassílabos), inaugurando o Classicismo em terras lusitanas.

Durante este quase um século (1434 - 1527), a literatura portuguesa abandonou as cantigas trovadorescas e se diversificou em três frentes principais: a história, a poesia de corte e o teatro.


As Três Vertentes Literárias do Humanismo

O projeto literário humanista em Portugal é sustentado por três grandes pilares, cada um com seu principal representante.

1. A Prosa Historiográfica: Fernão Lopes

Até então, contar a história de um reino era apenas listar os feitos heroicos e milagrosos dos reis. Fernão Lopes mudou isso completamente, tornando-se o pai da historiografia portuguesa.

Características da sua obra:

  • Rigor Documental: Ele não baseava seus textos em lendas, mas em documentos oficiais arquivados.
  • Visão Crítica e Imparcial: Buscava contar a "nua verdade", mesmo que isso significasse mostrar defeitos de pessoas poderosas.
  • O Povo como Protagonista: Sua maior inovação foi colocar a arraia-miúda (o povo comum) como força motriz das mudanças históricas, como visto na Crônica de D. João I, onde o povo ativamente defende Portugal contra Castela.

2. A Poesia Palaciana: Garcia de Resende

No Trovadorismo, a poesia era inseparável da música (cantigas). No Humanismo, ocorre a separação entre texto e melodia. A poesia passa a ser feita para ser declamada e lida nos palácios, ganhando o nome de Poesia Palaciana.

  • Estrutura: Escrita em Medida Velha (redondilhas maiores, com 7 sílabas poéticas, e redondilhas menores, com 5 sílabas).
  • Temas: O amor cortês ainda existe, mas de forma mais intelectualizada e menos submissa. Surgem também poemas satíricos e de circunstância (sobre eventos do dia a dia da corte).
  • Obra principal: O Cancioneiro Geral (1516), compilado por Garcia de Resende, que reuniu poesias de quase 300 autores da época.

3. O Teatro Vicentino: Gil Vicente

Se você tiver que estudar apenas um tópico de Humanismo para o ENEM, estude Gil Vicente. Ele é o criador do teatro português e um dos maiores dramaturgos de todos os tempos.

Ilustração de uma encenação teatral de Gil Vicente, mostrando o Anjo e o Diabo em suas barcas.
Fonte: Ateliê Editorial
*[Imagem: Ilustração de uma encenação teatral de Gil Vicente, mostrando o Anjo e o Diabo em suas barcas.]*

Gil Vicente escrevia na transição, portanto, sua obra possui um pé na Idade Média (moralismo cristão) e outro no Renascimento (crítica feroz à sociedade). Sua máxima era:

"Ridendo castigat mores" (Rindo, castigam-se os costumes).

Ele utilizava o riso e a ironia para expor os vícios de todas as classes sociais.

Obras Religiosas / Moralizantes (Os Autos)

Peças de caráter alegórico onde personagens representam conceitos abstratos (o Bem, o Mal, a Igreja, a Avareza) ou classes sociais genéricas.

  • A Obra-Prima: Auto da Barca do Inferno. A peça se passa em um porto onde há duas barcas: a do Inferno (comandada pelo Diabo) e a da Glória (comandada por um Anjo). Várias personagens chegam após a morte e são julgadas.
    • O Fidalgo: Vai para o inferno pela tirania e vaidade.
    • O Sapateiro: Vai para o inferno por roubar os clientes.
    • O Frade: Vai para o inferno por quebrar os votos de castidade (tinha uma amante) e se dedicar a frivolidades mundanas (esgrima, dança).
    • Atenção: Gil Vicente critica o clero corrupto (o mau comportamento dos padres), mas nunca a Igreja como instituição divina. Ele é um moralista cristão.

Obras de Costumes / Profanas (As Farsas)

Peças curtas, cômicas, focadas no dia a dia, nos casamentos arranjados e nas traições. O foco é puramente terreno e profano.

  • A Obra-Prima: Farsa de Inês Pereira. Inês é uma moça do povo que quer casar com um homem "polido" (um escudeiro que sabe tocar violão), mas acaba se dando mal, pois ele se revela um tirano. Após ficar viúva, ela aceita casar com um camponês simplório (Pero Marques), a quem ela passa a trair e manipular. O ditado da peça é: "Mais quero asno que me carregue que cavalo que me derrube".

Mnemônicos e Dicas

Para não confundir as características do Humanismo com as de outras épocas, memorize a sigla P.A.C.T.O. do Humanismo:

  • Poesia Palaciana (separação da música, feita para leitura na corte).
  • Antropocentrismo (o homem valorizado, a razão ganhando força).
  • Crônica Histórica (Fernão Lopes e o rigor documental).
  • Teatro Vicentino (crítica de costumes através do riso).
  • Oposição à dependência divina cega (busca por ciência, sem negar a Deus).

Dica de Ouro: O Humanismo é TRANSIÇÃO. Não cometa o erro de dizer que o Humanismo é puramente clássico. Ele mistura elementos medievais (como a métrica em redondilhas e a moralidade de Gil Vicente) com o embrião da racionalidade renascentista.


Como Cai no ENEM

O ENEM adora o Humanismo por causa do seu caráter de denúncia social e reflexão ética, habilidades muito cobradas na prova de Linguagens.

Os padrões de questões mais comuns são:

  1. Interpretação de trechos do Auto da Barca do Inferno: A questão trará um diálogo (geralmente do Frade, do Onzeneiro/Agiota ou do Fidalgo) e perguntará qual é a crítica social embutida ali. Lembre-se: Gil Vicente pune a hipocrisia, a corrupção e a exploração do povo.
  2. A "Prática de Linguagem" e o Contexto: O ENEM gosta de mostrar como o teatro de Gil Vicente funcionava como um "espelho" para a sociedade da época, interagindo com a ideologia dominante e criando um sentido coletivo de moralidade (como visto na teoria de contextos discursivos).
  3. Transição de Visão de Mundo: Textos comparando a postura passiva do homem medieval com a postura ativa, mercantil e questionadora do homem no período de transição (século XV).

Pegadinha comum: Afirmar que Gil Vicente era ateu ou anticristo porque criticava os padres. Falso. Ele era profundamente católico; sua crítica era interna, visando corrigir o comportamento dos religiosos, não destruir a religião.


Principais Dúvidas


Resumo Completo

O Humanismo (século XV) é o período literário e cultural de transição entre a Idade Média (Trovadorismo) e o Renascimento (Classicismo). Impulsionado pela ascensão da burguesia e pelo surgimento das cidades, o pensamento europeu deslocou-se do Teocentrismo para o Antropocentrismo (o homem no centro, valorização da razão), preparando o terreno para a Idade Moderna.

Os Três Pilares Literários (Portugal):

  • Prosa Historiográfica (Fernão Lopes): Busca pela verdade documental; tira o foco apenas dos reis e coloca o povo (arraia-miúda) como agente transformador da história.
  • Poesia Palaciana (Garcia de Resende): Textos compilados no Cancioneiro Geral. Separação entre poesia e música. Escrita em Medida Velha (redondilhas) para entretenimento da corte.
  • Teatro Vicentino (Gil Vicente): O grande destaque para o ENEM. Teatro popular, moralizante, focado na transição. Usa do humor para expor defeitos (Ridendo castigat mores).
    • Autos: Temática religiosa/moral (Ex: Auto da Barca do Inferno - crítica severa ao clero corrupto e nobreza opressora, mas sem negar a fé cristã).
    • Farsas: Temática profana, focada no cotidiano e costumes sociais (Ex: Farsa de Inês Pereira).

Tabela-Resumo da Transição

Idade Média (Antes)Humanismo (O Meio do Caminho)Renascimento (Depois)
Teocentrismo plenoAntropocentrismo surgindoAntropocentrismo absoluto
Poesia cantadaPoesia falada (Palaciana)Sonetos (Medida Nova)
Dogma religiosoRazão questionadora + Moral cristãRazão e imitação greco-latina

Checklist Final do que saber:

  • Compreender o que é o Antropocentrismo e como ele não exclui a fé cristã.
  • Entender a importância da burguesia no financiamento da nova arte.
  • Saber que a Poesia Palaciana separou a música da letra.
  • Reconhecer a importância histórica de Fernão Lopes.
  • Dominar as características da crítica social de Gil Vicente no Auto da Barca do Inferno.

Referências

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