A Frase e a Construção de Sentido em Gêneros Publicitários e Jornalísticos

A forma como construímos uma frase pode mudar completamente o seu impacto. No ENEM, a prova de Linguagens não avalia apenas se você sabe o que é um verbo ou um substantivo, mas sim por que o autor escolheu aquela estrutura específica para convencer, informar ou emocionar o leitor. Compreender a construção de sentido nos gêneros publicitários (que querem te vender uma ideia) e jornalísticos (que buscam informar com credibilidade) é a chave para dominar a interpretação de textos.
Sumário
- O Poder da Frase: Muito Além da Gramática
- Gêneros Jornalísticos: A Construção da Credibilidade
- Gêneros Publicitários: A Arte da Persuasão
- A Multimodalidade: Quando a Imagem Vira Texto
- Mnemônicos e Dicas
- Como Cai no ENEM
- Principais Dúvidas
- Resumo Completo
- Referências
O Poder da Frase: Muito Além da Gramática
Na Análise do Discurso, uma frase nunca é inocente. A escolha entre usar a voz ativa ou a voz passiva, por exemplo, pode revelar a ideologia do autor de um texto.
Considere as duas frases abaixo noticiando o mesmo fato:
- "A polícia reprimiu os manifestantes com violência." (Foco no agente da ação: a polícia).
- "Manifestantes foram reprimidos com violência." (Omissão do agente: quem bateu? A voz passiva esconde o autor da ação).
Esse jogo de esconde-esconde sintático é o que chamamos de construção de sentido. Nos gêneros jornalísticos, essas escolhas buscam criar um efeito de objetividade e imparcialidade. Já nos gêneros publicitários, a frase é esculpida para seduzir, dialogar diretamente com o leitor e gerar uma necessidade.
Gêneros Jornalísticos: A Construção da Credibilidade
O jornalismo tem como função social principal a informação. Para que o leitor acredite no que está lendo, o texto precisa ser construído de forma a transparecer objetividade e verdade (predominância da Função Referencial da linguagem).
A Reportagem de Divulgação Científica
Um dos gêneros jornalísticos mais cobrados no ENEM é a reportagem de divulgação científica. Ela atua como uma ponte: pega um conhecimento complexo e técnico (nascido nas universidades e laboratórios) e o traduz para um público leigo.
A linguagem científica tradicional é densa, impessoal e cheia de jargões. Na divulgação jornalística, a frase precisa ser reestruturada. Para isso, os jornalistas utilizam padrões específicos:
- Tempo Verbal: Há o predomínio do Presente do Indicativo. Isso ocorre porque o jornalista está descrevendo fenômenos que são considerados verdades científicas ou processos atemporais.
- Recursos Literários (Metáforas e Analogias): Para explicar conceitos abstratos, o jornalista aproxima o vocabulário do cotidiano do leitor.
Exemplo Prático: As Formigas-Zumbi Imagine um cientista explicando que o fungo Ophiocordyceps unilateralis penetra a carapaça de quitina do gênero Camponotus e produz metabólitos secundários que afetam o sistema nervoso central do inseto, culminando na dispersão de esporos. O jornalista traduz isso construindo a metáfora da "formiga-zumbi". A palavra "zumbi" ativa imediatamente no leitor a ideia de "controle mental" e "morte em vida", resumindo um processo biológico complexo em uma imagem familiar e impactante.
Exemplo Prático: Os Rios Voadores Na climatologia, fala-se em "transporte de umidade atmosférica e evapotranspiração". O jornalismo batizou esse fenômeno de "Rios Voadores". A analogia constrói perfeitamente o sentido: há um volume imenso de água (rio) transitando pela atmosfera (voador) da bacia Amazônica até o Sul e Sudeste, barrado pela Cordilheira dos Andes.
A Estrutura e as Vozes de Autoridade
Embora a reportagem não tenha uma estrutura engessada, ela segue uma lógica de construção argumentativa para gerar credibilidade:
- Gatilho: O fato ou problema central que gerou a reportagem (ex: a discussão sobre a legalização da clonagem de animais zootécnicos no Brasil).
- Citações/Vozes (Discurso Citado): O jornalista raramente opina diretamente. Ele constrói o sentido da reportagem alternando entre o discurso direto (transcrição literal entre aspas) e o discurso indireto.
- Por que usar aspas? Ao citar um bioeticista falando sobre a ovelha Dolly, o jornalista insere uma "voz de autoridade", conferindo peso acadêmico ao texto sem perder a fluidez jornalística.
Gêneros Publicitários: A Arte da Persuasão
Enquanto o jornalismo se esforça para parecer neutro, a publicidade assume sua intenção manipuladora. O objetivo é modificar o comportamento do receptor, seja para comprar um produto (anúncio publicitário) ou aderir a uma ideia/campanha (propaganda institucional).
Aqui, a Função Apelativa (ou Conativa) reina absoluta. Como isso se reflete na construção da frase?
- Uso de Verbos no Imperativo: "Compre", "Faça", "Participe", "Não perca". A frase atua como uma ordem ou convite irrecusável.
- Diálogo Direto: O uso de pronomes de tratamento (você, seu, sua) quebra a quarta parede. O texto olha nos olhos do leitor.
- Ambiguidade e Duplo Sentido: A publicidade adora brincar com a polissemia (múltiplos significados de uma palavra).
- Exemplo de campanha de trânsito: "Mude de atitude ou mude de endereço." (A palavra endereço, aqui, constrói o sentido oculto de cemitério/morte).
- Adjetivação Intensa: Frases nominais ricas em adjetivos valorativos (o melhor, incomparável, inovador).

A Multimodalidade: Quando a Imagem Vira Texto
No ENEM, o conceito de "texto" vai muito além das palavras escritas. A multimodalidade é a combinação de diferentes linguagens (verbal, visual, sonora) para construir um sentido único.
Infográficos e Dados Ilustrados
O infográfico é um gênero expositivo multimodal. Ele não apenas enfeita a página; ele é a informação. A leitura de um infográfico exige habilidades de raciocínio espacial e associação.
Pegue novamente o exemplo dos Rios Voadores:
- Eixo X/Y (O Mapa): Traz a representação espacial da América do Sul.
- Vetores (Setas): Na construção do sentido visual, setas azuis indicam direção e movimento. Elas mostram o vento indo de Leste para Oeste e, ao bater na Cordilheira dos Andes, desviando para o Sul.
- Ícones e Símbolos: Nuvens, pingos e árvores substituem parágrafos inteiros de explicação sobre a reciclagem de água e a precipitação.
Se você retirar o texto de um bom infográfico, a imagem ainda deve transmitir a essência da mensagem. Se retirar a imagem, o texto fica incompleto.

Novos Formatos: Podcasts e Vlogs
A divulgação científica e o jornalismo migraram para os meios digitais, gerando novos gêneros:
- Podcast Científico: Gênero oral expositivo. Foca no áudio. A construção de sentido depende fortemente da entonação da voz, da trilha sonora (para criar tensão ou humor) e de narrativas envolventes (storytelling) para desmistificar conteúdos complexos.
- Vlog Científico: Audiovisual. Tem um registro mais informal. O produtor de conteúdo (vlogger) frequentemente utiliza gírias, memes e edição rápida para manter a retenção do público jovem, aproximando a ciência do cotidiano.
- Selos de confiabilidade (como o Science Vlogs Brasil) são estratégias do meio digital para substituir a antiga "credibilidade do jornal impresso", garantindo a veracidade num mundo de fake news.
Mnemônicos e Dicas
Para não confundir na hora da prova, lembre-se das intenções de cada gênero e de suas marcas linguísticas.
Mnemônicos para Funções da Linguagem:
J-R e P-A (Jota-Erre e Pê-A)
- Jornalismo = Referencial (Informa, foca no contexto, 3ª pessoa, presente do indicativo).
- Publicidade = Apelativa (Convence, foca no receptor, imperativo, pronome "você").
Dica de Leitura de Infográficos (Método 3V):
- Verifique o Título (Qual é o assunto central?).
- Vetores (Para onde as setas apontam? Elas mostram causa/consequência ou fluxo temporal?).
- Vocabulário visual (O que significam as cores? Vermelho geralmente é perigo/calor, azul é água/frio).
Como Cai no ENEM
O ENEM ama cobrar a função social do texto. As questões geralmente apresentam uma campanha de conscientização (gênero publicitário institucional) ou um trecho de reportagem científica e pedem para você identificar a estratégia do autor.
Padrões de Questões:
- Identificação de Público-Alvo: O enunciado pergunta "para quem" o texto foi escrito. Você deve procurar marcas de informalidade, gírias ou o canal de veiculação (ex: um Vlog no YouTube mira no público jovem).
- Estratégias de Persuasão: Pedem para identificar como o texto convence o leitor. A resposta quase sempre envolve o uso de verbos no imperativo, jogos de palavras, ou a tentativa de causar impacto emocional/choque.
- Função da Citação: Se a prova trouxer uma reportagem com aspas de um cientista, e perguntar a função daquele trecho, a resposta certa invariavelmente orbita em torno de "conferir credibilidade à argumentação" ou "validar a informação por meio de um argumento de autoridade".
Pegadinha Comum: Cuidado para não confundir informar com conscientizar.
- Uma reportagem sobre os perigos da dengue quer informar.
- Um cartaz do Ministério da Saúde dizendo "Não deixe água parada" quer conscientizar/persuadir (é uma campanha publicitária de utilidade pública).
Principais Dúvidas
Resumo Completo
A construção de sentido em textos não depende apenas do vocabulário, mas da arquitetura das frases e do propósito do autor. Gêneros jornalísticos e publicitários utilizam ferramentas linguísticas opostas para atingir seus objetivos de informar e persuadir.
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Gêneros Jornalísticos (Foco: Informar e dar credibilidade):
- Predomínio da voz de terceiros (citações e discurso citado).
- Em divulgação científica: tradução do jargão acadêmico via metáforas (ex: "formigas-zumbi", "rios voadores").
- Predomínio do tempo verbal no presente do indicativo para enunciar verdades atemporais.
- Função predominante: Referencial.
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Gêneros Publicitários (Foco: Persuadir e modificar comportamento):
- Linguagem apelativa e diálogo direto com o leitor.
- Marcas linguísticas: verbos no imperativo, uso de pronomes ("você"), adjetivação forte.
- Forte uso de ambiguidades, ironias e jogos de palavras para captar atenção.
- Função predominante: Apelativa/Conativa.
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Multimodalidade e Digitalidade:
- Infográficos: Combinam texto, ícones e vetores. A posição de cada elemento (como setas indicando ventos) compõe o sentido do texto.
- Vlogs e Podcasts: Adaptaram o discurso científico para o ambiente digital por meio da informalidade, entonação e narrativas engajadoras.
Checklist final para o ENEM:
- Sei diferenciar a Função Referencial da Função Apelativa.
- Entendo por que jornalistas usam aspas e citações (argumento de autoridade).
- Consigo identificar verbos no imperativo e seu papel na persuasão publicitária.
- Compreendo como ler as imagens (vetores, cores) em um infográfico juntamente com o texto.
- Entendo como a divulgação científica usa metáforas do cotidiano para explicar ciências complexas.
Referências
- Base Nacional Comum Curricular (BNCC) - Linguagens e suas Tecnologias — Orientações sobre gêneros discursivos e letramento midiático no Ensino Médio.
- Brasil Escola: Gêneros Jornalísticos — Artigo detalhado sobre as diferenças estruturais entre notícia, reportagem, editorial e artigo de opinião.
- Toda Matéria: Funções da Linguagem — Guia completo sobre as funções de Jakobson, fundamentais para análise do discurso.
- Khan Academy: Gêneros e tipos textuais — Módulos em português sobre identificação de intenções discursivas e análise de textos multimodais.