As Marcas Linguísticas da Posição do Enunciador

Você já parou para pensar que nenhum texto é 100% neutro? Ao escrever ou falar, sempre deixamos "pistas" sobre quem somos, o que pensamos e qual a nossa intenção. Na prova de Linguagens do ENEM, identificar essas impressões digitais deixadas no texto — as chamadas marcas linguísticas do enunciador — é uma das habilidades mais cobradas para garantir uma interpretação profunda e desvendar a verdadeira mensagem por trás das palavras.
Sumário
- O que é Enunciação?
- Principais Marcas Linguísticas
- A Manipulação das Marcas na Divulgação Científica
- Mnemônicos e Dicas
- Como Cai no ENEM
- Principais Dúvidas
- Resumo Completo
- Referências
O que é Enunciação?
Para a Análise do Discurso, a enunciação é o ato individual de utilização da língua. É o momento exato em que alguém produz uma mensagem em um determinado contexto.
- Enunciado: É o produto físico, o texto falado ou escrito em si (a frase, o parágrafo).
- Enunciador: É a "voz" que fala no texto. Não se confunde necessariamente com o autor real (de carne e osso), mas sim com a figura, a posição ou o "personagem" que assume a autoria daquela mensagem.
- Coenunciador (ou Enunciatário): É o leitor/ouvinte projetado para receber e interpretar o texto.
As marcas linguísticas são as ferramentas gramaticais e de vocabulário que o enunciador escolhe usar para demonstrar seu grau de certeza, seus julgamentos de valor, sua autoridade ou sua proximidade com o tema e com o leitor [1].
Principais Marcas Linguísticas
Existem diversas formas de deixar a nossa marca em um texto. As mais cobradas nos vestibulares dividem-se em categorias gramaticais e semânticas.

Modalizadores Discursivos
Os modalizadores são palavras ou expressões (geralmente advérbios ou adjetivos) que evidenciam a atitude e o ponto de vista do falante em relação àquilo que ele mesmo está dizendo. Eles "filtram" a realidade segundo a visão do autor [2].
Eles são classificados em três tipos principais:
| Tipo de Modalizador | O que expressa? | Exemplos Comuns |
|---|---|---|
| Epistêmico | Avalia o grau de certeza, dúvida ou probabilidade sobre o conhecimento de um fato. | Certamente, talvez, é provável, sem dúvida, possivelmente, de jeito nenhum. |
| Deôntico | Exprime a ideia de obrigação, dever, permissão ou necessidade (muito comum em leis e regras). | Devemos, é necessário, é proibido, pode-se, é obrigatório. |
| Apreciativo | Emite um julgamento de valor ou um estado emocional sobre o fato narrado. | Felizmente, infelizmente, curiosamente, é triste que, francamente. |
Dêiticos
Os dêiticos (do grego deixis, que significa "apontar") são palavras que só fazem sentido se soubermos quem está falando, onde e quando. Eles ancoram o texto na situação real de comunicação [3].
- Dêiticos de Pessoa: Revelam quem fala e com quem se fala (eu, tu, nós, meu, nosso).
- Dêiticos de Tempo: Situam o momento da fala (agora, hoje, ontem, amanhã, neste momento).
- Dêiticos de Espaço: Situam o local do enunciador (aqui, ali, lá, este, aquele).
Exemplo prático: Se você encontrar um bilhete no chão escrito "Volto amanhã para buscar meu livro aqui", a mensagem é incompreensível sem o contexto. Quem é "meu"? Quando é "amanhã"? Onde é "aqui"? Todas essas palavras são dêiticos.
Tempos e Modos Verbais
A escolha do verbo nunca é acidental. O modo verbal reflete diretamente a intenção do enunciador:
- Modo Indicativo: Transmite certeza, fatos consolidados.
- Modo Subjuntivo: Transmite dúvida, hipótese, desejo.
- Modo Imperativo: Tenta intervir no comportamento do outro (ordens, conselhos, pedidos).
A Manipulação das Marcas na Divulgação Científica
A reportagem de divulgação científica é um gênero textual riquíssimo para analisarmos a posição do enunciador. O objetivo desse gênero é transpor o jargão técnico acadêmico para uma linguagem acessível ao público leigo, sem perder a credibilidade.
Para parecer isento e científico, o enunciador muitas vezes tenta "apagar" suas próprias marcas (escondendo o "eu"), mas utiliza outras estratégias muito específicas [4]:
1. O Uso do Presente do Indicativo
A divulgação científica usa massivamente o Presente do Indicativo para descrever processos, criando a sensação de uma verdade atemporal e universal.
Exemplo: "O fungo parasita insetos." O verbo no presente afasta a ideia de que foi apenas uma observação isolada no passado e eleva a afirmação ao status de lei científica.
2. Seleção Lexical: Metáforas e Analogias
Como o leitor é leigo, o enunciador escolhe propositalmente palavras do cotidiano (figuras de linguagem) para ilustrar processos biológicos ou geográficos complexos.
O Fenômeno das Formigas-Zumbi: Ao invés de descrever apenas que fungos do gênero Ophiocordyceps produzem metabólitos secundários que afetam o sistema nervoso central do inseto Camponotus, o texto jornalístico usa a analogia da "formiga-zumbi". A escolha da palavra "zumbi" é uma forte marca do enunciador tentando fisgar a atenção e imaginação do leitor.
Os Rios Voadores: A evapotranspiração da bacia Amazônica e o transporte massivo de vapor d'água em direção à Cordilheira dos Andes (que serve como barreira geográfica) e depois para o Centro-Sul do Brasil é batizado como "Rios Voadores". Essa metáfora visualiza o volume absurdo de água suspenso na atmosfera.

3. Vozes de Autoridade (Discurso Direto)
Para conferir autoridade ao texto, o jornalista traz vozes externas (pesquisadores, cientistas, universidades). O uso de aspas (discurso direto) é uma marca enunciativa que diz: "Não sou eu, mero jornalista, quem afirma isso, mas sim a Ciência".
4. Modalizadores Deônticos na Ciência
Quando o texto de divulgação aborda ética científica, como a clonagem (técnica de transferência nuclear famosa pela ovelha Dolly), os modalizadores deônticos ganham força. Expressões como o projeto de lei que "proíbe" a clonagem humana ou "deve regulamentar" o uso de animais de interesse zootécnico marcam as regras sociais impostas à biotecnologia.
Mnemônicos e Dicas
Para não esquecer como procurar as marcas do enunciador na hora da prova, lembre-se do macete M.E.D.A.:
- Modalizadores: Procure os advérbios que indicam dúvida (talvez), certeza (obviamente) ou emoção (felizmente).
- Escolha Lexical: Preste atenção aos adjetivos e substantivos. Chamar alguém de "líder" é diferente de chamar de "chefe" ou "ditador".
- Dêiticos: Fique de olho nos pronomes de primeira pessoa (eu, nós, meu) que indicam forte subjetividade.
- Apontamentos Verbais: Verifique o modo e o tempo do verbo (Indicativo vs. Subjuntivo).
Dica de Ouro: Em textos cobrados no ENEM, as marcas do enunciador geralmente se escondem nos adjetivos e advérbios. Ao ler os textos motivadores, circule essas palavras!
Como Cai no ENEM
O ENEM exige a identificação das marcas linguísticas principalmente dentro da Competência de Área 8 (Compreender e usar a língua portuguesa como língua materna).
As questões costumam apresentar crônicas, artigos de opinião ou textos jornalísticos e pedir para o aluno apontar:
- Qual palavra ou trecho revela a opinião subjetiva do autor em um texto que parece neutro [5].
- Como o nível de formalidade ou informalidade é construído pelas escolhas do enunciador.
Padrão de Questão ENEM (exemplo de 2022): A prova trouxe um texto da cronista Martha Medeiros e perguntou como as marcas linguísticas revelavam uma situação distensa e de pouca formalidade. A resposta correta envolvia a percepção de que a autora utilizava o emprego de metáforas do cotidiano (ex: "a vida engata uma primeira e sai em disparada") para se aproximar do leitor [5].
Outra abordagem comum é a variação linguística regional ou social, como na clássica música "Assum Preto" (Luiz Gonzaga), onde marcas do rotacismo (trocar 'l' por 'r', como em "tarvez" e "sorto") singularizam a posição social e regional do enunciador.
Principais Dúvidas
Resumo Completo
As marcas da enunciação são as impressões digitais que o autor deixa no texto, revelando intencionalmente (ou não) suas opiniões, grau de certeza, contexto histórico e emoções. Compreender essas pistas é separar a leitura superficial da interpretação crítica exigida pelo ENEM.
- Modalizadores Discursivos: Palavras que emitem julgamento ou atitude.
- Epistêmicos: Conhecimento/Certeza (certamente, talvez).
- Deônticos: Obrigação/Norma (deve, é proibido).
- Apreciativos: Sentimento/Valor (felizmente, infelizmente).
- Dêiticos: Palavras que ancoram o texto na situação real (eu, aqui, agora).
- Divulgação Científica: Usa o presente do indicativo para gerar verdades universais, metáforas (Rios voadores, formigas-zumbi) para simplificar e discurso direto para garantir autoridade.
- Dica ENEM: Circule os adjetivos e advérbios; eles são os delatores da subjetividade em textos de opinião.
Checklist do que saber para a prova:
- Entender a diferença entre enunciação e enunciado.
- Reconhecer dêiticos de pessoa, tempo e espaço em tirinhas e crônicas.
- Classificar modalizadores discursivos.
- Perceber como a escolha das palavras (metáforas e gírias) indica o tom (formal/informal) e a proximidade do enunciador com o público.
Referências
- [1] FIORIN, José Luiz. Em busca do sentido: estudos de discursividade. São Paulo: Contexto. (Conceitos base de enunciação e dêiticos).
- [2] PACHECO, Mariana do Carmo. "O que são modalizadores discursivos?". Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/o-que-e/portugues/o-que-sao-modalizadores-discursivos.htm.
- [3] MOURA, Neusa. "Teoria da Enunciação e Análise do Discurso". Artigos acadêmicos baseados em Émile Benveniste sobre debreagem e embreagem.
- [4] Materiais didáticos alinhados à BNCC sobre Linguagem na Divulgação Científica (análise estrutural e figuras de linguagem).
- [5] APROVA TOTAL. "Como reconhecer marcas linguísticas em um texto?". Disponível em: https://aprovatotal.com.br/marcas-linguisticas-como-reconhecer/. Análise de questões recentes do ENEM (Ex: Martha Medeiros - ENEM 2022).