A Atitude Filosófica: O Rompimento com o Senso Comum no ENEM

A filosofia não nasce de certezas absolutas, mas da dúvida e do incômodo. A atitude filosófica é o momento exato em que decidimos parar de aceitar o mundo passivamente e começamos a questionar sua essência. No ENEM e nos vestibulares, compreender essa ruptura com o senso comum é a habilidade central para acertar questões de Epistemologia e Introdução à Filosofia. Neste artigo, você vai entender como o espanto diante do cotidiano nos liberta da "caverna" da ignorância [1].
Sumário
- O que é a Atitude Filosófica?
- Crenças Silenciosas e o Senso Comum
- Dogmatismo vs. Estranhamento
- As Duas Faces da Atitude Crítica
- Atitude Filosófica vs. Atitude Científica
- Os Campos do Conhecimento segundo Aristóteles
- Mnemônicos e Dicas
- Como Cai no ENEM
- Principais Dúvidas
- Resumo Completo
- Referências
O que é a Atitude Filosófica?
Etimologicamente, a palavra Filosofia vem do grego philosophía, que significa "amor à sabedoria" (philos = amor/amizade; sophia = sabedoria). O filósofo não é aquele que detém todo o conhecimento, mas aquele que o deseja apaixonadamente.
A atitude filosófica é a decisão consciente de não aceitar como naturais, óbvias e evidentes as coisas, ideias e comportamentos da nossa existência sem antes havê-los investigado [1].
É a passagem de uma postura passiva (aceitar tudo o que nos dizem) para uma postura ativa e crítica. Veja a diferença prática nas perguntas do dia a dia:
- A atitude costumeira pergunta: "Que horas são?"
- A atitude filosófica pergunta: "O que é o tempo?"
Enquanto o senso comum foca na utilidade imediata e na aceitação tácita, a filosofia transforma objetos de crença em objetos de indagação.
Crenças Silenciosas e o Senso Comum
Nossa vida cotidiana é inteiramente baseada em crenças aceitas sem questionamento. A filósofa Marilena Chaui, figurinha carimbada no ENEM, chama isso de "crenças silenciosas" [1]. Agimos no piloto automático baseados em convicções como:
- Tempo: Acreditamos que o tempo existe, passa e pode ser medido nos relógios.
- Causalidade: Acreditamos nas relações de causa e efeito (se há fumaça, há fogo).
- Objetividade: Acreditamos que o mundo exterior é real e existe independentemente da nossa mente.
- Vontade e Liberdade: Acreditamos que temos o poder de escolha (livre-arbítrio) entre o bem e o mal.
- Verdade vs. Mentira: Acreditamos ser capazes de diferenciar a realidade da ilusão.
A atitude filosófica nasce justamente quando essas crenças entram em crise. Quando uma contradição abala nossas certezas, somos forçados a pensar fora da caixa.
Dogmatismo vs. Estranhamento
A Prisão do Dogmatismo
A atitude natural e espontânea de aceitar o mundo sem questionar é denominada dogmatismo. Um dogma é uma verdade inquestionável. O dogmatismo é a crença cega de que a realidade é exatamente como a percebemos, aceitando as regras sociais, os valores morais e as "verdades" do mundo como uma moldura estática e imutável.

Para ilustrar, lembre-se do filme Matrix ou do Mito da Caverna de Platão. O dogmático é aquele que prefere viver no mundo das aparências (ou tomar a pílula azul), acreditando que as sombras na parede da caverna são a realidade absoluta [1].
O Papel do Estranhamento (Espanto)
A superação do dogmatismo ocorre através do estranhamento (também chamado de espanto ou admiração).
Aristóteles e Platão afirmavam que a filosofia começa com o espanto (thauma em grego). É quando você olha para algo incrivelmente familiar (como a linguagem, a política ou o amor) e, de repente, percebe que não entende o que aquilo significa de verdade. Esse incômodo rompe os preconceitos e nos empurra para a busca da verdade racional.
"A filosofia é um despertar. O espanto nos tira da letargia do cotidiano."
A Ilusão dos Sentidos (O Exemplo de Descartes)
Para comprovar que o dogmatismo e o senso comum falham, o filósofo René Descartes utilizava o fenômeno da refração.

Se você colocar um lápis dentro de um copo com água, seus olhos dirão que o lápis está quebrado. Se você confiar apenas nos sentidos (empiria não refletida), chegará a uma conclusão falsa. É a razão (reflexão filosófica) que intervém para nos dizer que se trata apenas de um fenômeno óptico e que o lápis está intacto.
As Duas Faces da Atitude Crítica
Para o ENEM, essa é a parte mais importante. A atitude filosófica gera a atitude crítica. Etimologicamente, "crítica" vem do grego e significa "capacidade de julgar, discernir e analisar".
Segundo Marilena Chaui, a atitude filosófica possui duas faces inseparáveis [1]:
1. A Face Negativa
Consiste em dizer "NÃO". É a negação dos pré-conceitos, dos pré-juízos e dos fatos estabelecidos do cotidiano. É tomar distância das crenças costumeiras e recusar o "é assim porque todo mundo diz que é".
2. A Face Positiva
Consiste na interrogação profunda. Após dizer "não" às falsas certezas, o filósofo busca as verdadeiras essências fazendo três perguntas estruturais:
- O que é a coisa (ideia, valor, comportamento)?
- Como é a coisa (sua estrutura, suas relações)?
- Por que é a coisa (sua origem, sua causa)?
Atitude Filosófica vs. Atitude Científica
A atitude filosófica é o motor que impulsiona não apenas a reflexão humana, mas também a Ciência. Ambas se opõem ao senso comum, mas possuem focos diferentes.
Enquanto o senso comum é fragmentado e subjetivo, a atitude científica é [1]:
- Objetiva: busca a estrutura universal dos fenômenos.
- Quantitativa: utiliza medidas e padrões matemáticos.
- Diferenciadora e Homogênea: agrupa individualidades sob leis gerais (como a Lei da Gravitação Universal de Newton).
A Ruptura Epistemológica
Ao contrário da crença popular de que a ciência é um acúmulo contínuo de verdades, o filósofo Gaston Bachelard introduziu o conceito de Ruptura Epistemológica. Para que um novo conhecimento científico nasça, ele precisa romper violentamente com os velhos hábitos mentais e com o senso comum, que atuam como "obstáculos epistemológicos".
A lógica formal também nos afasta da mera opinião. O princípio da identidade aristotélica afirma que (uma proposição é sempre idêntica a si mesma). A ciência e a filosofia exigem que nossas crenças não violem princípios racionais básicos como este.
Os Campos do Conhecimento segundo Aristóteles
Para organizar como o ser humano aplica sua atitude investigativa, Aristóteles dividiu os saberes em três grandes áreas, baseadas em suas finalidades:
| Tipo de Ciência | Finalidade | Exemplos |
|---|---|---|
| Ciências Produtivas | A finalidade é a produção de um objeto/obra externa ao agente. | Arquitetura, Medicina, Artesanais, Pintura, Poesia. |
| Ciências Práticas | A finalidade da ação é a própria ação em si mesma. O foco é a conduta humana. | Ética (busca do bem individual) e Política (busca do bem comum). |
| Ciências Teoréticas | A contemplação e o estudo puro da realidade que existe independentemente da ação humana. | Física (natureza), Matemática, Astronomia e Metafísica/Ontologia (o Ser). |
Mnemônicos e Dicas
Para não esquecer o núcleo da Atitude Filosófica na hora da prova, lembre-se do Mnemônico E.N.I.:
- E - Estranhamento: O choque inicial que tira você do senso comum.
- N - Negativa (Face): Dizer NÃO às crenças cegas e preconceitos.
- I - Interrogação (Face Positiva): Perguntar o quê, por que e como.
Dica de Ouro ENEM: Se a questão perguntar o que caracteriza o pensamento filosófico nos seus primórdios (Grécia Antiga) ou nos dias de hoje, fuja de alternativas que falem em "dogmas", "aceitação da tradição", "verdades prontas" ou "utilidade prática imediata". A resposta correta quase sempre envolverá "rompimento com o senso comum", "questionamento racional" ou "atitude crítica" [1].
Como Cai no ENEM
O ENEM adora contrastar o texto de um filósofo com situações do dia a dia. As questões costumam apresentar fragmentos de Marilena Chaui, Platão (Mito da Caverna) ou Descartes [1].
Padrões de Pegadinhas no ENEM:
- Pegadinha 1: Dizer que a filosofia serve para "dar respostas finais e definitivas". (Falso! A filosofia formula perguntas, não receitas de bolo).
- Pegadinha 2: Confundir Senso Comum com Senso Crítico. (Senso comum é a doxa/opinião; senso crítico é o rigor filosófico).
- Pegadinha 3: Afirmar que a atitude filosófica é inata ou um dom divino. (Falso! Ela é uma construção racional e metodológica, acessível a qualquer um que decida questionar).
Principais Dúvidas
Resumo Completo
A atitude filosófica marca a transição da passividade do senso comum para o questionamento crítico e racional. Ela exige que abandonemos o conforto de nossas crenças silenciosas para investigar a verdadeira natureza da realidade.
- Senso Comum: Baseado em crenças passivas (dogmatismo), utilidade imediata e falta de rigor metodológico.
- Estranhamento (Espanto): O choque que rompe a barreira do dogmatismo, revelando a ignorância frente ao que parecia familiar.
- Face Negativa (Crítica): Dizer "NÃO" aos preconceitos e respostas prontas.
- Face Positiva (Crítica): Dizer "SIM" à interrogação (O que é? Por que é? Como é?).
- Atitude Científica: Diferencia-se do senso comum por buscar objetividade, causalidade, padronização e quantificação, frequentemente promovendo rupturas epistemológicas.
- Aristóteles e os Saberes: Dividiu as ciências em Produtivas (fazer objetos), Práticas (ação/conduta humana como Ética) e Teoréticas (contemplação da verdade como Física e Metafísica).
Checklist final do que saber para o ENEM:
- Sei diferenciar o Senso Comum (opinião/doxa) da Filosofia (razão/episteme).
- Compreendo que o Dogmatismo é a aceitação acrítica do mundo.
- Entendo o "Estranhamento" como o gatilho da reflexão filosófica.
- Memorizei as duas faces da atitude crítica propostas por Marilena Chaui.
- Entendo o sentido de Ruptura Epistemológica.
Referências
- CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. 14ª ed. São Paulo: Ática, 2011. [1]
- CHAUI, Marilena. Iniciação à Filosofia. 3ª ed. São Paulo: Ática, 2016. [1]
- ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: introdução à filosofia. São Paulo: Moderna, 2009.
- Descomplica: O que mais cai (e o que nunca muda) no Enem de Humanas [1].
- Toda Matéria: Filosofia no Enem: o que mais cai na prova [1].