O Conceito de Razão na Filosofia Contemporânea: Frankfurt, Crítica e ENEM

A Modernidade prometeu que a razão salvaria a humanidade. Acreditava-se que o avanço da ciência e do pensamento racional acabaria com a fome, as guerras e a ignorância. Mas o século XX chegou trazendo guerras mundiais, bombas atômicas e regimes totalitários — tudo construído com alta tecnologia e extrema "racionalidade". Diante disso, a Filosofia Contemporânea precisou fazer uma pergunta dura: a razão falhou? Neste artigo, vamos entender como a filosofia dos séculos XX e XXI passou a enxergar a razão não mais como uma deusa infalível, mas como uma ferramenta que precisa ser constantemente vigiada. Esse é um dos temas mais recorrentes da prova de Ciências Humanas do ENEM!
Sumário
- Os Vários Sentidos da Palavra Razão
- A Herança Moderna: Da Confiança à Crise
- A Escola de Frankfurt e as Duas Faces da Razão
- Estruturalismo e a Razão Descontínua
- Por Que Ainda Falamos em Razão?
- Mnemônicos e Dicas
- Como Cai no ENEM
- Principais Dúvidas
- Resumo Completo
- Referências
Os Vários Sentidos da Palavra Razão
Antes de entendermos a crítica contemporânea, precisamos saber do que exatamente estamos falando. No nosso cotidiano, a palavra "razão" é usada de várias formas:
- Certeza: "Você está com a razão" (conhecimento seguro).
- Lucidez: "Ele perdeu a razão" (sanidade, consciência).
- Motivo: "Qual a razão de você estar triste?" (justificativa).
- Causa: "A chuva foi a razão da enchente" (explicação natural).
A filosofia organiza esses significados cotidianos em dois grandes blocos para entender como nos relacionamos com a verdade: a Razão Subjetiva e a Razão Objetiva.
A Divisão Filosófica da Racionalidade
| Tipo de Razão | O que significa? | Exemplo |
|---|---|---|
| Razão Subjetiva | É a nossa capacidade mental. A faculdade humana intelectual e ética de compreender, calcular, refletir e organizar o pensamento. | O ser humano usando a lógica para resolver uma equação. |
| Razão Objetiva | É a afirmação de que a própria realidade tem uma ordem intrínseca, leis naturais e é regida por uma harmonia que pode ser desvendada. | As órbitas dos planetas seguindo leis da gravitação. A natureza é "racional". |

Desde René Descartes, a filosofia tem demonstrado que nossos sentidos podem nos enganar (como o lápis que parece quebrado na água devido à refração). Por isso, a filosofia moderna apostou todas as suas fichas na razão como a única bússola confiável.
A Herança Moderna: Da Confiança à Crise
Para entender a dor de cabeça dos filósofos contemporâneos, precisamos lembrar o que eles herdaram dos pensadores anteriores. O debate epistemológico (sobre o conhecimento) moderno dividiu-se entre:
- Racionalismo (Descartes): A razão, operando na mente (o Cogito), é a fonte de toda verdade. O modelo ideal é a matemática.
- Empirismo (Bacon, Locke): A experiência sensorial controla a razão. O modelo são as ciências experimentais.
Essa disputa culminou no Iluminismo com Immanuel Kant, que estabeleceu limites para a razão (a distinção entre o que percebemos, o fenômeno, e o que a coisa é em si, o nômeno). Logo depois, no século XIX, Hegel levou o otimismo racional ao máximo: para ele, a História era o próprio desenrolar da Razão em um progresso contínuo e dialético. A realidade e a razão eram a mesma coisa.
A Ruptura Contemporânea
Chegamos aos séculos XX e XXI. Diferente do século XIX, que achava que a filosofia iria desaparecer e ser substituída pelas ciências puras, a contemporaneidade viu que as ciências não são neutras nem infalíveis.
A bomba atômica foi criada por mentes brilhantes usando o método científico rigoroso (, por exemplo, foi a base física, onde é energia, é massa e a velocidade da luz). Se a razão humana era tão perfeita, como ela nos levou ao limite da autodestruição?
A Escola de Frankfurt e as Duas Faces da Razão
É aqui que entra o tema queridinho do ENEM: a Teoria Crítica da Escola de Frankfurt. Pensadores como Theodor Adorno, Max Horkheimer e Herbert Marcuse analisaram profundamente essa crise da razão.
Eles criticaram a visão hegeliana de que a razão seria uma força mágica e autônoma. Para eles, a razão é condicionada pela economia, pela política e pelos interesses de dominação.

Para explicar o que deu errado, Adorno e Horkheimer, no livro A Dialética do Esclarecimento, dividiram a razão moderna em duas modalidades:
1. Razão Instrumental (ou Técnico-Científica)
É a razão focada nos meios para se atingir um fim, ignorando a ética do objetivo final.
- Objetivo: Dominação da natureza e, consequentemente, dos outros seres humanos.
- Como funciona: Ela calcula a forma mais eficiente, rápida e barata de fazer algo, sem perguntar se esse "algo" é bom ou mau.
- Exemplo: O sistema de linhas de montagem das fábricas (onde o trabalhador é tratado como máquina) ou, no caso mais extremo, a logística dos campos de concentração nazistas (eficiência administrativa aplicada para o mal absoluto).
2. Razão Crítica (ou Filosófica)
É a razão original, que pensa sobre os fins da vida humana.
- Objetivo: Emancipação, liberdade e justiça social.
- Como funciona: Ela reflete sobre as contradições sociais e políticas. Ela questiona: "Para que estamos desenvolvendo essa tecnologia? Quem se beneficia? Alguém está sendo explorado?".
- O problema: A Escola de Frankfurt diagnosticou que, no capitalismo avançado, a Razão Instrumental engoliu a Razão Crítica. Deixamos de pensar no "porquê" das coisas para pensar apenas no "como produzir mais".
Estruturalismo e a Razão Descontínua
Outro duro golpe na visão clássica da razão veio com o Estruturalismo e filósofos franceses (como Michel Foucault, Gilles Deleuze e Jacques Derrida) e teóricos da ciência.
Lembra que Hegel via a razão como um acúmulo contínuo? Como se estivéssemos subindo uma escada infinita rumo à verdade? A contemporaneidade diz: não é bem assim.
A história da razão se dá por descontinuidades e saltos (frequentemente chamados de rupturas epistemológicas ou mudanças de paradigma).
- O que isso significa? O conhecimento não apenas se soma; às vezes, uma nova descoberta destrói toda a base anterior e cria uma "nova razão".
- Exemplo na Física: A Teoria da Relatividade de Einstein não é apenas um "anexo" ou uma continuação direta da Física de Isaac Newton. Ela é uma ruptura. Ela estabelece novos princípios de tempo e espaço que não faziam sentido na "razão" newtoniana.
Portanto, não existe uma única "Razão Universal" pairando no ar desde sempre; existem "estruturas de pensamento" que mudam radicalmente de uma época para outra.
Por Que Ainda Falamos em Razão?
Se a razão causou dominação (Escola de Frankfurt) e não é universal e contínua (Estruturalismo), devemos abandonar a razão e abraçar a loucura ou o irracionalismo completo?
A resposta é NÃO.
Apesar de todas as críticas, a razão continua sendo a nossa principal ferramenta de avaliação, mas agora sob bases mais humildes e vigiadas. Mantemos a razão por causa de dois pilares fundamentais:
- Coerência Interna: Precisamos da razão lógica para garantir que nossas teorias, leis e conceitos não se contradigam. Sem coerência, não há debate possível.
- Potencial Ativo/Transformador: A própria Escola de Frankfurt usou a razão para criticar a razão. A razão (na sua modalidade crítica) é a única ferramenta capaz de identificar injustiças e alterar circunstâncias intoleráveis, buscando melhorar a vida humana.
Como diria a contemporaneidade: não jogamos a ferramenta fora, apenas aprendemos a usá-la contra seus próprios defeitos.
Mnemônicos e Dicas
Para o ENEM, você precisa gravar muito bem as diferenças apontadas pela Escola de Frankfurt. Use este macete:
MACETE: R.I.C.A. A razão moderna se dividiu, mas infelizmente só uma domina. Lembre-se que o sistema capitalista quer ficar RICA:
- R - Razão
- I - Instrumental: É a razão focada nos meios, nos instrumentos de dominação (ciência sem ética, lucro a qualquer custo).
- C - Crítica: É a razão original da filosofia, focada nos fins e na emancipação.
- A - Adorno (Theodor Adorno, principal nome a lembrar ao lado de Horkheimer).
Outra dica: Viu as palavras "indústria cultural", "massificação", "dominação da natureza" ou "ciência como ideologia" no ENEM? A resposta quase com 100% de certeza envolve a crítica à Razão Instrumental.
Como Cai no ENEM
O ENEM ama a Filosofia Contemporânea porque ela exige leitura crítica do mundo atual. Os padrões de cobrança são muito claros:
- Textos da Escola de Frankfurt: Frequentemente aparecem trechos de Adorno e Horkheimer ou de seus comentadores apontando como a tecnologia e a ciência (Razão Instrumental) se descolaram da moral. A habilidade cobrada é identificar a crítica à dominação tecnológica.
- Indústria Cultural: Decorrente direta da razão instrumental. É a razão aplicada à arte, transformando música, cinema e cultura em meras mercadorias padronizadas feitas para não fazer o público pensar (massificação).
- Pegadinha Clássica: A questão tenta induzir você a achar que a Escola de Frankfurt era contra a ciência ou a favor do irracionalismo ("ódio à razão"). Falso! Eles eram contra a instrumentalização da razão, e queriam resgatar o pensamento crítico.
Principais Dúvidas
Resumo Completo
A Filosofia Contemporânea reconstrói o conceito de razão, distanciando-se do otimismo cego dos pensadores modernos e hegelianos. Em vez de ver a razão como o caminho automático para o paraíso humano, ela passa a analisá-la de forma crítica, apontando como a ciência e o pensamento podem ser usados para a dominação.
- Usos da palavra Razão: Pode significar certeza, lucidez, motivo ou causa. Filosoficamente, divide-se em Subjetiva (capacidade mental humana) e Objetiva (ordenação cósmica e natural).
- A Ilusão do Progresso Contínuo: Pensadores estruturalistas mostraram que o conhecimento se dá por saltos e rupturas epistemológicas (descontinuidade), e não por um acúmulo infinito e pacífico.
- Escola de Frankfurt: Principal movimento do tema (Teoria Crítica).
- Razão Instrumental: Foco na utilidade, eficiência, controle tecnológico, cálculo e dominação. Engoliu a humanidade no capitalismo.
- Razão Crítica: Foco na emancipação humana, reflexão social e questionamento ético.
- Por que mantemos a razão? Porque ela garante a coerência interna do pensamento lógico e possui um potencial transformador quando usada como instrumento de crítica social.
Checklist do que saber para a prova:
- Diferenciar Razão Objetiva e Razão Subjetiva.
- Entender a crítica da Escola de Frankfurt.
- Diferenciar de forma clara Razão Instrumental vs. Razão Crítica.
- Compreender o conceito de ruptura epistemológica/razão descontínua.
- Identificar a Razão Instrumental agindo através da Indústria Cultural e do capitalismo tecnológico.
Referências
- Brasil Escola. A Escola de Frankfurt e a Teoria Crítica. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/sociologia/escola-frankfurt.htm — Artigo detalhando o surgimento e conceitos base dos frankfurtianos.
- Toda Matéria. A Escola de Frankfurt: Principais Ideias e Filósofos. Disponível em: https://www.todamateria.com.br/escola-de-frankfurt/ — Resumo didático sobre Adorno, Horkheimer e Marcuse.
- Chaui, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática. (Obra de referência alinhada à BNCC sobre os conceitos fundamentais de razão na tradição filosófica).
- Kant, Immanuel. Crítica da Razão Pura. (Marco teórico do limite da razão iluminista, fundamental para o entendimento do desenvolvimento filosófico contemporâneo).