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A Era Vargas (1930-1945): Fases, Economia e Como Cai no ENEM

Fotografia histórica de Getúlio Vargas discursando para uma grande multidão em praça pública, simbolizando o populismo e a comunicação direta com as massas.
Fonte: Hora do Povo

A Era Vargas compreende o período ininterrupto de 15 anos em que Getúlio Vargas governou o Brasil (1930 a 1945). Trata-se de um divisor de águas na nossa História: marca a transição definitiva de um Brasil rural, agrário e dominado por oligarquias regionais, para um país urbano, industrial e com um Estado centralizado. É o tema de História do Brasil que mais cai no ENEM, exigindo que o aluno compreenda as contradições entre a concessão de direitos trabalhistas e o autoritarismo político do período.

Sumário

  1. O Fim da Primeira República e o Movimento de 1930
  2. Fases da Era Vargas
    1. Governo Provisório (1930-1934)
    2. Governo Constitucional (1934-1937)
    3. O Estado Novo (1937-1945)
  3. Economia, Trabalhismo e Populismo
    1. Trabalhismo e Corporativismo
    2. Nacionalismo Econômico e Indústria
  4. A Segunda Guerra e a Queda de Vargas (1945)
  5. Mnemônicos e Dicas
  6. Como Cai no ENEM
  7. Principais Dúvidas
  8. Resumo Completo
  9. Referências

O Fim da Primeira República e o Movimento de 1930

Durante a Primeira República (1889-1930), a política brasileira era dominada por elites agrárias, sobretudo de São Paulo e Minas Gerais (a famosa política do café com leite). Contudo, na década de 1920, uma série de crises abalaram esse sistema:

  • A modernização urbana gerou insatisfação na classe média e no nascente operariado.
  • O movimento tenentista (jovens militares) exigia o fim das fraudes eleitorais e do voto de cabresto.
  • A Crise de 1929 derrubou vertiginosamente o preço do café, o principal pilar econômico do país.

A ruptura final ocorreu na eleição presidencial de 1930. O então presidente Washington Luís (SP) rompeu o acordo com Minas Gerais e indicou o paulista Júlio Prestes para a sucessão. Revoltadas, as elites de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba formaram a Aliança Liberal, lançando Getúlio Vargas como candidato à presidência, com João Pessoa como vice.

A Aliança Liberal foi derrotada nas urnas. O estopim para a revolta armada foi o assassinato de João Pessoa (motivado por questões regionais na Paraíba, mas capitalizado politicamente). Em 3 de outubro de 1930, iniciou-se a revolução que culminou na deposição de Washington Luís. Getúlio Vargas assumiu o poder, encerrando a República Velha.


Fases da Era Vargas

A Era Vargas é dividida em três fases muito distintas, marcadas por diferentes graus de autoritarismo e consolidação institucional.

Governo Provisório (1930-1934)

Getúlio Vargas assumiu de forma provisória, prometendo uma nova Constituição. Suas primeiras medidas foram autoritárias: dissolveu o Congresso Nacional, suspendeu a Constituição de 1891 e passou a governar por decretos-leis. Para controlar os estados, destituiu os governadores e nomeou interventores, muitos deles militares tenentistas.

Isso gerou profunda insatisfação em São Paulo, que exigia a reconstitucionalização do país e um interventor civil e paulista. O choque resultou na Revolução Constitucionalista de 1932.

Cartaz histórico da Revolução Constitucionalista de 1932 convocando os paulistas às armas com a sigla MMDC.
Fonte: Wikipédia
*[Imagem: Cartaz histórico da Revolução Constitucionalista de 1932 convocando os paulistas às armas com a sigla MMDC.]*

O movimento paulista ficou marcado pela sigla MMDC (iniciais dos estudantes Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo, mortos em um protesto). Apesar da derrota militar após três meses, São Paulo obteve uma vitória política: Vargas convocou eleições para uma Assembleia Constituinte.

Nesse período, foi criado o Código Eleitoral de 1932, um marco na cidadania brasileira que instituiu:

  1. O voto secreto (golpe mortal no coronelismo).
  2. O voto feminino (pela primeira vez no Brasil, mulheres podiam votar e ser votadas).
  3. A criação da Justiça Eleitoral (para coibir fraudes).

Governo Constitucional (1934-1937)

A Assembleia promulgou a Constituição de 1934, que possuía um caráter híbrido (misturava liberalismo político com corporativismo). Ela incorporou as regras do Código Eleitoral, criou a Justiça do Trabalho, previu o ensino primário público obrigatório e estabeleceu a eleição indireta para o primeiro mandato. Vargas foi eleito presidente pelos constituintes para governar até 1938.

Essa fase foi marcada por intensa polarização política e ideológica, reflexo do que acontecia na Europa. Dois grandes grupos se enfrentaram no Brasil:

GrupoViés IdeológicoLíderCaracterísticas
AIB (Ação Integralista Brasileira)Extrema-direita (fascismo)Plínio SalgadoLema "Deus, Pátria e Família", ultranacionalistas, usavam camisas verdes.
ANL (Aliança Nacional Libertadora)Esquerda (frente popular antifascista)Luís Carlos PrestesDefendia reforma agrária, não pagamento da dívida externa e combate ao fascismo.

Em 1935, a ANL promoveu uma tentativa de golpe mal sucedida conhecida como Intentona Comunista. Vargas usou esse evento para reprimir severamente a oposição de esquerda, decretando estado de sítio e preparando terreno para o endurecimento do regime.

O Estado Novo (1937-1945)

No final de 1937, o governo divulgou o Plano Cohen, um documento supostamente comunista que detalhava um plano de massacres e incêndios no Brasil. Mais tarde descobriu-se que o documento era falso (forjado pelo capitão integralista Olímpio Mourão Filho), mas serviu de pretexto perfeito.

Alegando proteger a nação, Vargas deu um golpe de Estado em 10 de novembro de 1937, instaurando o Estado Novo (1937-1945), uma ditadura de inspiração fascista.

Principais características do Estado Novo:

  • Constituição "Polaca" (1937): Outorgada (imposta), altamente centralizadora, extinguia o Congresso Nacional e os partidos políticos.
  • DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda): Órgão responsável pela férrea censura a jornais, rádio e artes, e pela propaganda oficial (culto ao líder e criação do programa "A Hora do Brasil").
  • Dasp (Departamento Administrativo do Serviço Público): Criado para burocratizar, modernizar e controlar a máquina pública via concursos.
Cartaz de propaganda do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) exaltando a figura de Getúlio Vargas como líder da nação.
Fonte: Memorial da Democracia -
*[Imagem: Cartaz de propaganda do DIP exaltando a figura de Getúlio Vargas como líder da nação e pai do povo.]*

Economia, Trabalhismo e Populismo

Trabalhismo e Corporativismo

A Era Vargas mudou radicalmente a relação entre o Estado e os trabalhadores urbanos. Baseado no modelo fascista italiano, Vargas implementou o corporativismo, no qual as relações entre patrões e empregados passaram a ser tuteladas pelo Estado, evitando a luta de classes (greves).

O Ministério do Trabalho (criado já em 1930) e a Lei de Sindicalização (1931) atrelaram os sindicatos ao Estado. Só era reconhecido o sindicato oficial (sindicato pelego), que era proibido de fazer política.

O ápice dessa política foi a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), decretada em 1943. Ela reuniu e garantiu direitos como salário mínimo, jornada de 8 horas, férias remuneradas e descanso semanal.

O Paradoxo Varguista: A legislação trabalhista foi, simultaneamente, um avanço social inegável (garantia de direitos básicos ao operário) e um poderoso instrumento de controle e desmobilização social ("os direitos foram doados pelo Pai, logo, não há por que fazer greves ou revoluções").

Esse modelo de troca (Estado concede benefícios materiais em troca de subordinação política) é chamado pelo sociólogo Francisco Weffort de Estado de Compromisso. Foi a base da chamada "política de massas" ou Populismo, característica marcante não só de Vargas, mas de líderes como Lázaro Cárdenas (México) e Juan Domingo Perón (Argentina).

Imagem de uma antiga Carteira de Trabalho e Previdência Social, símbolo da legislação trabalhista criada na Era Vargas.
Fonte: VALEMAISRS
*[Imagem: Imagem de uma antiga Carteira de Trabalho e Previdência Social, símbolo da legislação trabalhista criada na Era Vargas.]*

Nacionalismo Econômico e Indústria

Vargas adotou a política de Substituição de Importações. Com o mundo em crise (e depois em guerra), o Brasil precisava produzir internamente o que antes comprava de fora.

O Estado assumiu o papel de grande empresário, investindo diretamente em indústrias de base (quelas que produzem insumos para outras indústrias funcionarem), já que a burguesia nacional não tinha capital suficiente para esses mega-projetos.

Principais criações estatais:

  • CSN (Companhia Siderúrgica Nacional), em Volta Redonda (RJ).
  • CVRD (Companhia Vale do Rio Doce), para mineração.
  • Chesf (Companhia Hidrelétrica do São Francisco), para energia.
  • FNM (Fábrica Nacional de Motores).

A Segunda Guerra e a Queda de Vargas (1945)

A política externa de Vargas no início do Estado Novo era pragmática, flertando tanto com os EUA quanto com a Alemanha Nazista. Contudo, em 1941, no auge da ofensiva do Eixo (queda da França, Operação Barbarossa contra a URSS), os EUA intensificam a pressão diplomática e econômica sobre a América Latina.

Após os EUA financiarem a construção da CSN e navios brasileiros serem torpedeados por submarinos alemães, o Brasil declarou guerra ao Eixo em 1942, enviando em 1944 a FEB (Força Expedicionária Brasileira) para combater o fascismo na Itália.

Isso gerou uma contradição insustentável: como o Brasil enviava soldados para morrer na Europa lutando pela democracia contra o fascismo, enquanto mantinha uma ditadura fascista (Estado Novo) internamente?

Com o fim da guerra iminente em 1945, a oposição cresceu. Formaram-se novos partidos (UDN, oposição liberal; PSD e PTB, bases de apoio de Vargas). Um forte movimento popular, o Queremismo ("Queremos Getúlio!"), pediu a permanência de Vargas para conduzir a redemocratização. Temendo que Vargas desse um novo golpe com apoio popular, as Forças Armadas depuseram Getúlio Vargas em 29 de outubro de 1945, encerrando a Era Vargas.

O país foi às urnas e elegeu o general Eurico Gaspar Dutra, iniciando uma breve experiência democrática no Brasil republicano. (Nota: Vargas voltaria ao poder em 1951, democraticamente eleito, fundando a Petrobras e encerrando sua vida com um trágico suicídio em 1954, mas esta fase pertence ao chamado período Populista/Democrático).


Mnemônicos e Dicas

  • Fases da Era Vargas — "Para Comer Empada"

    • Provisório (1930-1934)
    • Constitucional (1934-1937)
    • Estado Novo (1937-1945)
  • O Mito Varguista:

    • "Pai dos Pobres e Mãe dos Ricos": Esse ditado resume o Populismo. Ele era o "pai dos pobres" ao conceder a CLT e direitos trabalhistas (garantindo o apoio das massas). Mas era a "mãe dos ricos" porque impediu revoluções comunistas, conteve greves pelo controle sindical e ajudou a burguesia nacional subsidiando a indústria. Nenhuma propriedade privada foi tocada.
  • A Farsa e a Realidade (Década de 30):

    • Intentona Comunista (1935): Real. Tentativa de golpe da esquerda.
    • Plano Cohen (1937): Fake. Forjado pela direita para justificar o golpe do Estado Novo.

Como Cai no ENEM

A Era Vargas é presença quase obrigatória na prova de Ciências Humanas do ENEM. Fique atento às seguintes abordagens:

  1. Ambiguidade das Leis Trabalhistas: O ENEM adora cobrar a dupla função da CLT. Você deve reconhecer que os direitos sociais foram reais, mas serviram como uma ferramenta política de apaziguamento social e controle sindical do Estado sobre as classes trabalhadoras.
  2. Propaganda e Imagem: Muitas questões trazem imagens do DIP. A habilidade exigida é identificar o uso da comunicação de massa (rádio, cartilhas) para construir o culto à personalidade do líder ("Pai da Nação") e criar uma identidade nacional unificada.
  3. Economia: É comum a comparação entre a República Velha (agroexportadora, liberalismo) e a Era Vargas (nacional-desenvolvimentista, industrialização por substituição de importações e forte intervenção estatal).
  4. Voto Feminino: A conquista de 1932 aparece frequentemente em questões sobre a luta das mulheres por cidadania e expansão de direitos políticos na Primeira República.

Principais Dúvidas


Resumo Completo

Para revisar tudo rapidamente antes do vestibular, foque nestes pontos fundamentais:

A Era Vargas (1930-1945) marca o fim da hegemonia das oligarquias cafeicultoras paulistas e o início de um Brasil industrial, urbano e de Estado forte centralizador.

  • O Fim da República Velha: Quebra da economia cafeeira em 1929, insatisfação militar (tenentes) e assassinato de João Pessoa levaram Getúlio ao poder no Movimento de 1930.
  • Governo Provisório (1930-1934): Fechamento do Congresso, Revolução de 1932 (São Paulo exige Constituição) e Código Eleitoral de 1932 (voto secreto e feminino).
  • Governo Constitucional (1934-1937): Constituição híbrida de 1934, radicalização política (AIB fascista vs. ANL antifascista) e repressão da Intentona Comunista.
  • Estado Novo (1937-1945): Ditadura iniciada sob o pretexto do falso Plano Cohen. Criação do DIP (censura/propaganda) e da Constituição "Polaca".
  • Economia e Sociedade: Corporativismo, criação do Ministério do Trabalho, CLT (direitos em troca de submissão do sindicato), política de massas. Nacionalismo econômico com investimentos estatais em indústrias de base (CSN, Vale).
  • Queda: A contradição entre a luta democrática da FEB contra o Eixo na Segunda Guerra e a ditadura interna do Estado Novo levou ao esgotamento do regime. Vargas foi deposto pelos militares em 1945.

Checklist do que você não pode esquecer:

  • O conceito de "Estado de Compromisso" no populismo.
  • O papel dúbio da CLT (garantia de vida digna vs. amarra política nos sindicatos).
  • A função ideológica do DIP na construção do "Pai dos Pobres".
  • A diferença entre a intentona real de 1935 (comunista) e o plano falso de 1937 (Cohen).
  • O Estado como grande planejador na base econômica (siderurgia e mineração).

Referências

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