A Era Vargas (1930-1945): Fases, Economia e Como Cai no ENEM

A Era Vargas compreende o período ininterrupto de 15 anos em que Getúlio Vargas governou o Brasil (1930 a 1945). Trata-se de um divisor de águas na nossa História: marca a transição definitiva de um Brasil rural, agrário e dominado por oligarquias regionais, para um país urbano, industrial e com um Estado centralizado. É o tema de História do Brasil que mais cai no ENEM, exigindo que o aluno compreenda as contradições entre a concessão de direitos trabalhistas e o autoritarismo político do período.
Sumário
- O Fim da Primeira República e o Movimento de 1930
- Fases da Era Vargas
- Economia, Trabalhismo e Populismo
- A Segunda Guerra e a Queda de Vargas (1945)
- Mnemônicos e Dicas
- Como Cai no ENEM
- Principais Dúvidas
- Resumo Completo
- Referências
O Fim da Primeira República e o Movimento de 1930
Durante a Primeira República (1889-1930), a política brasileira era dominada por elites agrárias, sobretudo de São Paulo e Minas Gerais (a famosa política do café com leite). Contudo, na década de 1920, uma série de crises abalaram esse sistema:
- A modernização urbana gerou insatisfação na classe média e no nascente operariado.
- O movimento tenentista (jovens militares) exigia o fim das fraudes eleitorais e do voto de cabresto.
- A Crise de 1929 derrubou vertiginosamente o preço do café, o principal pilar econômico do país.
A ruptura final ocorreu na eleição presidencial de 1930. O então presidente Washington Luís (SP) rompeu o acordo com Minas Gerais e indicou o paulista Júlio Prestes para a sucessão. Revoltadas, as elites de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba formaram a Aliança Liberal, lançando Getúlio Vargas como candidato à presidência, com João Pessoa como vice.
A Aliança Liberal foi derrotada nas urnas. O estopim para a revolta armada foi o assassinato de João Pessoa (motivado por questões regionais na Paraíba, mas capitalizado politicamente). Em 3 de outubro de 1930, iniciou-se a revolução que culminou na deposição de Washington Luís. Getúlio Vargas assumiu o poder, encerrando a República Velha.
Fases da Era Vargas
A Era Vargas é dividida em três fases muito distintas, marcadas por diferentes graus de autoritarismo e consolidação institucional.
Governo Provisório (1930-1934)
Getúlio Vargas assumiu de forma provisória, prometendo uma nova Constituição. Suas primeiras medidas foram autoritárias: dissolveu o Congresso Nacional, suspendeu a Constituição de 1891 e passou a governar por decretos-leis. Para controlar os estados, destituiu os governadores e nomeou interventores, muitos deles militares tenentistas.
Isso gerou profunda insatisfação em São Paulo, que exigia a reconstitucionalização do país e um interventor civil e paulista. O choque resultou na Revolução Constitucionalista de 1932.

O movimento paulista ficou marcado pela sigla MMDC (iniciais dos estudantes Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo, mortos em um protesto). Apesar da derrota militar após três meses, São Paulo obteve uma vitória política: Vargas convocou eleições para uma Assembleia Constituinte.
Nesse período, foi criado o Código Eleitoral de 1932, um marco na cidadania brasileira que instituiu:
- O voto secreto (golpe mortal no coronelismo).
- O voto feminino (pela primeira vez no Brasil, mulheres podiam votar e ser votadas).
- A criação da Justiça Eleitoral (para coibir fraudes).
Governo Constitucional (1934-1937)
A Assembleia promulgou a Constituição de 1934, que possuía um caráter híbrido (misturava liberalismo político com corporativismo). Ela incorporou as regras do Código Eleitoral, criou a Justiça do Trabalho, previu o ensino primário público obrigatório e estabeleceu a eleição indireta para o primeiro mandato. Vargas foi eleito presidente pelos constituintes para governar até 1938.
Essa fase foi marcada por intensa polarização política e ideológica, reflexo do que acontecia na Europa. Dois grandes grupos se enfrentaram no Brasil:
| Grupo | Viés Ideológico | Líder | Características |
|---|---|---|---|
| AIB (Ação Integralista Brasileira) | Extrema-direita (fascismo) | Plínio Salgado | Lema "Deus, Pátria e Família", ultranacionalistas, usavam camisas verdes. |
| ANL (Aliança Nacional Libertadora) | Esquerda (frente popular antifascista) | Luís Carlos Prestes | Defendia reforma agrária, não pagamento da dívida externa e combate ao fascismo. |
Em 1935, a ANL promoveu uma tentativa de golpe mal sucedida conhecida como Intentona Comunista. Vargas usou esse evento para reprimir severamente a oposição de esquerda, decretando estado de sítio e preparando terreno para o endurecimento do regime.
O Estado Novo (1937-1945)
No final de 1937, o governo divulgou o Plano Cohen, um documento supostamente comunista que detalhava um plano de massacres e incêndios no Brasil. Mais tarde descobriu-se que o documento era falso (forjado pelo capitão integralista Olímpio Mourão Filho), mas serviu de pretexto perfeito.
Alegando proteger a nação, Vargas deu um golpe de Estado em 10 de novembro de 1937, instaurando o Estado Novo (1937-1945), uma ditadura de inspiração fascista.
Principais características do Estado Novo:
- Constituição "Polaca" (1937): Outorgada (imposta), altamente centralizadora, extinguia o Congresso Nacional e os partidos políticos.
- DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda): Órgão responsável pela férrea censura a jornais, rádio e artes, e pela propaganda oficial (culto ao líder e criação do programa "A Hora do Brasil").
- Dasp (Departamento Administrativo do Serviço Público): Criado para burocratizar, modernizar e controlar a máquina pública via concursos.

Economia, Trabalhismo e Populismo
Trabalhismo e Corporativismo
A Era Vargas mudou radicalmente a relação entre o Estado e os trabalhadores urbanos. Baseado no modelo fascista italiano, Vargas implementou o corporativismo, no qual as relações entre patrões e empregados passaram a ser tuteladas pelo Estado, evitando a luta de classes (greves).
O Ministério do Trabalho (criado já em 1930) e a Lei de Sindicalização (1931) atrelaram os sindicatos ao Estado. Só era reconhecido o sindicato oficial (sindicato pelego), que era proibido de fazer política.
O ápice dessa política foi a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), decretada em 1943. Ela reuniu e garantiu direitos como salário mínimo, jornada de 8 horas, férias remuneradas e descanso semanal.
O Paradoxo Varguista: A legislação trabalhista foi, simultaneamente, um avanço social inegável (garantia de direitos básicos ao operário) e um poderoso instrumento de controle e desmobilização social ("os direitos foram doados pelo Pai, logo, não há por que fazer greves ou revoluções").
Esse modelo de troca (Estado concede benefícios materiais em troca de subordinação política) é chamado pelo sociólogo Francisco Weffort de Estado de Compromisso. Foi a base da chamada "política de massas" ou Populismo, característica marcante não só de Vargas, mas de líderes como Lázaro Cárdenas (México) e Juan Domingo Perón (Argentina).

Nacionalismo Econômico e Indústria
Vargas adotou a política de Substituição de Importações. Com o mundo em crise (e depois em guerra), o Brasil precisava produzir internamente o que antes comprava de fora.
O Estado assumiu o papel de grande empresário, investindo diretamente em indústrias de base (quelas que produzem insumos para outras indústrias funcionarem), já que a burguesia nacional não tinha capital suficiente para esses mega-projetos.
Principais criações estatais:
- CSN (Companhia Siderúrgica Nacional), em Volta Redonda (RJ).
- CVRD (Companhia Vale do Rio Doce), para mineração.
- Chesf (Companhia Hidrelétrica do São Francisco), para energia.
- FNM (Fábrica Nacional de Motores).
A Segunda Guerra e a Queda de Vargas (1945)
A política externa de Vargas no início do Estado Novo era pragmática, flertando tanto com os EUA quanto com a Alemanha Nazista. Contudo, em 1941, no auge da ofensiva do Eixo (queda da França, Operação Barbarossa contra a URSS), os EUA intensificam a pressão diplomática e econômica sobre a América Latina.
Após os EUA financiarem a construção da CSN e navios brasileiros serem torpedeados por submarinos alemães, o Brasil declarou guerra ao Eixo em 1942, enviando em 1944 a FEB (Força Expedicionária Brasileira) para combater o fascismo na Itália.
Isso gerou uma contradição insustentável: como o Brasil enviava soldados para morrer na Europa lutando pela democracia contra o fascismo, enquanto mantinha uma ditadura fascista (Estado Novo) internamente?
Com o fim da guerra iminente em 1945, a oposição cresceu. Formaram-se novos partidos (UDN, oposição liberal; PSD e PTB, bases de apoio de Vargas). Um forte movimento popular, o Queremismo ("Queremos Getúlio!"), pediu a permanência de Vargas para conduzir a redemocratização. Temendo que Vargas desse um novo golpe com apoio popular, as Forças Armadas depuseram Getúlio Vargas em 29 de outubro de 1945, encerrando a Era Vargas.
O país foi às urnas e elegeu o general Eurico Gaspar Dutra, iniciando uma breve experiência democrática no Brasil republicano. (Nota: Vargas voltaria ao poder em 1951, democraticamente eleito, fundando a Petrobras e encerrando sua vida com um trágico suicídio em 1954, mas esta fase pertence ao chamado período Populista/Democrático).
Mnemônicos e Dicas
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Fases da Era Vargas — "Para Comer Empada"
- Provisório (1930-1934)
- Constitucional (1934-1937)
- Estado Novo (1937-1945)
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O Mito Varguista:
- "Pai dos Pobres e Mãe dos Ricos": Esse ditado resume o Populismo. Ele era o "pai dos pobres" ao conceder a CLT e direitos trabalhistas (garantindo o apoio das massas). Mas era a "mãe dos ricos" porque impediu revoluções comunistas, conteve greves pelo controle sindical e ajudou a burguesia nacional subsidiando a indústria. Nenhuma propriedade privada foi tocada.
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A Farsa e a Realidade (Década de 30):
- Intentona Comunista (1935): Real. Tentativa de golpe da esquerda.
- Plano Cohen (1937): Fake. Forjado pela direita para justificar o golpe do Estado Novo.
Como Cai no ENEM
A Era Vargas é presença quase obrigatória na prova de Ciências Humanas do ENEM. Fique atento às seguintes abordagens:
- Ambiguidade das Leis Trabalhistas: O ENEM adora cobrar a dupla função da CLT. Você deve reconhecer que os direitos sociais foram reais, mas serviram como uma ferramenta política de apaziguamento social e controle sindical do Estado sobre as classes trabalhadoras.
- Propaganda e Imagem: Muitas questões trazem imagens do DIP. A habilidade exigida é identificar o uso da comunicação de massa (rádio, cartilhas) para construir o culto à personalidade do líder ("Pai da Nação") e criar uma identidade nacional unificada.
- Economia: É comum a comparação entre a República Velha (agroexportadora, liberalismo) e a Era Vargas (nacional-desenvolvimentista, industrialização por substituição de importações e forte intervenção estatal).
- Voto Feminino: A conquista de 1932 aparece frequentemente em questões sobre a luta das mulheres por cidadania e expansão de direitos políticos na Primeira República.
Principais Dúvidas
Resumo Completo
Para revisar tudo rapidamente antes do vestibular, foque nestes pontos fundamentais:
A Era Vargas (1930-1945) marca o fim da hegemonia das oligarquias cafeicultoras paulistas e o início de um Brasil industrial, urbano e de Estado forte centralizador.
- O Fim da República Velha: Quebra da economia cafeeira em 1929, insatisfação militar (tenentes) e assassinato de João Pessoa levaram Getúlio ao poder no Movimento de 1930.
- Governo Provisório (1930-1934): Fechamento do Congresso, Revolução de 1932 (São Paulo exige Constituição) e Código Eleitoral de 1932 (voto secreto e feminino).
- Governo Constitucional (1934-1937): Constituição híbrida de 1934, radicalização política (AIB fascista vs. ANL antifascista) e repressão da Intentona Comunista.
- Estado Novo (1937-1945): Ditadura iniciada sob o pretexto do falso Plano Cohen. Criação do DIP (censura/propaganda) e da Constituição "Polaca".
- Economia e Sociedade: Corporativismo, criação do Ministério do Trabalho, CLT (direitos em troca de submissão do sindicato), política de massas. Nacionalismo econômico com investimentos estatais em indústrias de base (CSN, Vale).
- Queda: A contradição entre a luta democrática da FEB contra o Eixo na Segunda Guerra e a ditadura interna do Estado Novo levou ao esgotamento do regime. Vargas foi deposto pelos militares em 1945.
Checklist do que você não pode esquecer:
- O conceito de "Estado de Compromisso" no populismo.
- O papel dúbio da CLT (garantia de vida digna vs. amarra política nos sindicatos).
- A função ideológica do DIP na construção do "Pai dos Pobres".
- A diferença entre a intentona real de 1935 (comunista) e o plano falso de 1937 (Cohen).
- O Estado como grande planejador na base econômica (siderurgia e mineração).
Referências
- Era Vargas: o que foi, acontecimentos e resumo - Aprova Total — Contexto histórico e desenvolvimento do período no Brasil.
- Ação Integralista Brasileira e Aliança Nacional Libertadora - Brasil Escola — Artigos sobre a radicalização política na década de 30.
- CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: O longo caminho. 13ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.
- FAUSTO, Boris. História do Brasil. 14ª ed. São Paulo: EDUSP, 2012.